Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

Si hortum in biblioteca habes deerit nihil
Todos os textos aqui publicados podem ser utilizados desde que se mencione a sua origem.
A apresentar mensagens correspondentes à consulta manuel augusto ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta manuel augusto ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

24 de abril de 2020

A Família a que Pertenço



« Nasci em Porto da Lage, bem no Centro do País, aldeia criada pelo Caminho de Ferro – entre os Milagres de Fátima e os Fenómenos do Entroncamento. Esta importante “Linha do Norte” unia o Norte ao Sul e – a partir dali - abastecia o Leste (Castelo Branco, Alvaiázere, Tomar) e o Oeste (Nazaré) por galeras M.A.M., do Tio Manuel Augusto Mota.


A Ribeira de Beselga era a hipotenusa do triangulo rectângulo, cujos catetos eram o Caminho de Ferro e a estrada Tomar-Torres Novas. 





Originalmente, a aldeia ocupava essa área triangular, mas foi crescendo para fora do triângulo, o que obrigava a população a atravessar 1 de 3 obstáculos:






. a estrada, pelas inexistentes passadeiras;
. o Cº Ferro, pelas passagens de nível;e
. a Ribeira, pelas Pontes. 




Destas, a mais próxima era a Ponte de Cimento na Estrada Real, que nós usávamos para ir à Escola. No meu imaginário, teria conduzido a Minha Mãe (da Família Carmona, Bragança) à aldeia natal do meu Pai Henrique Pereira da Mota, onde ele foi Médico, desde 1933. 



As outras pontes eram de Sul para Norte: A sólida ponte de Pedra e 









e a ponte do Tio João dos Olivais, que evocava o Poeta Miguel Torga: 
“Sobre a ponte insegura é que épassar…
 É sentir o rio correr dentro das veias”…







Esta aldeia deu-nos uma sólida plataforma de apoio: Mãe, Pai, Avós, Irmãos, Tios, Primos…
Porto da Lage, Centro do País! A minha primeira contribuição científica! Achei um mapa das estradas e dobrei-o cuidadosamente, segundo as duas diagonais! O Cento lá estava, era óbvio! Por isso, Porto da Lage não vem no mapa… Não precisa! Vê-se a linha preta da CP, a linha azul da Ribeira e a linha vermelha da estrada TMR-TN. Nessa confluência está PdL! 
Há invejosos que disputam essa honra: Vila de Rei e Chorente! 
Vila de Rei até tem um Marco Geodésico gigante.

 Nós, um modesto “Marco da Paciência”, também geodésico, mas nada temos a ver com o Rei! 
Chorente. Há também um mapa, APÓCRIFO, mandado elaborar pela sua Morgadinha – Mapa de Portugale como ele deberia sere – que, para atingir os seus objectivos, remove a Mouraria (TUDO a Sul do Mondego) e acrescenta o Reino da Galiza, ao Norte. 
Assim Chorente se vai aproximando do Centro…. Invejosos!

A ESFERA SOCIAL ONDE ME INSERI onde compreendi as noções de: 
INTERDEPENDÊNCIA, pois havia um só profissional por cada ofício e todos nós dependíamos uns dos outros; 
ERGONOMIA, o exemplo do Relógio da Estação da CP – mais caro - com 2 faces para servir os utentes, sem risco para eles;
COMUNICAÇÕES, físicas – como se disse acima - ou orais e do uso de MODELOS que construía com Cubos, pedaços de madeira substituindo o Mecano, hoje LEGO! 
Não tínhamos TELEFONES, nem ÁGUA CORRENTE, nem ENERGIA ELÉCTRICA, mas nós concentrávamo-nos no que tínhamos. 

Escrevi “O ABECEDÁRIO DE PORTO DA LAGE” que espelha as 30 actividades únicas da aldeia, donde destaco o trabalho por turnos (da Fábrica do Álcool a partir do Figo, da Guarda Fiscal e da Estação do Cº de Ferro).





foto de guarda-fiscal retirada daqui















ABECEDÁRIO de PORTO DA LAGE (idealizado por miúdo de 5 anos, mas escrito 75 anos depois!):


ÁLCOOL+AGUARDENTE DE FIGO, turnos na Fábrica e material de escritório no dito.
BARBEARIA, O Zé Vasconcelos “Cocó” criava cocós, dava injecções, reparava bicicletas, e tinha luz a Carbureto.

COMPANHIA PORTUGUESA dos CAMINHOS de FERRO – CP, Turnos e o tal relógio ergonómico de 2 faces. 
DOMÉSTICAS, Falo mais à frente na Engrácia, mas há muito mais exemplos: Celeste Pequena, Maria dos Anjos, por ex.
ESCOLA PRIMÁRIA, onde fiz os 4 anos de Instrução Primária, com Professora de eleição: D. Amélia.
FARMÁCIA, hoje não existe; foi “ALFA”, antes “AFRICANA” pois o Sr. Oliveira fez o seu Pé de Meia em Moçambique.
GRÉMIO, Grupo Recreativo, mais tarde Clube, onde havia Teatro, Bailes, Ping Pong, Rádio etc.
HORTAS, Toda a gente tinha a sua, donde tirava as verduras com que se alimentava.
IGREJA, Apenas a 1ª pedra. A 2ª nunca apareceu. Mas o Padre Nicolau – um santo - compensava. ..Muito mais tarde fez-se a Capela nos Vales, com material cedido pelo Tio João Pereira da Mota, o tio João dos Olivais.
JORGE/JÚLIA, exploravam a Padaria, alimentando várias freguesias. Dali a noção de contrapeso! Pais da Mª Augusta e do Artur.
KREMLIM, Alguns exilados em Porto da Lage que preferiam o Norton de Matos ao Carmona. Daí o meu 1º discurso!

LAGARES DE AZEITE, 
Fascinantes: as mós a moer as azeitonas, bem espremidas depois. Havia dois: Tio António Mota e Tio Augusto Rosa.





MÉDICO, Dr. Mota, Consultas das 9 às 12… e das 12 às 9! Correspondente de “O SÉCULO”, diário do João Pereira da Rosa.





NITRATO DO CHILE, A Cª União Fabril,  representada pelo snr. Carlos Nunes -vendia adubos, fazendo lucros com cocó das aves do Chile.









OLEOS FISKE'S & PNEUS INDIA, do João Peixoto. Só 2 vezes na minha vida encontrei referências a tais marcas!
PASSAGENS DE NÍVEL, 3, tipo lição de geometria fazendo ângulos: 1 agudo, 1 obtuso e 1 recto.
QUIXOTESCO, O Marco da Paciência que era impaciente, mudando de lugar consoante a largura da camionete da Serração…
RIBEIRA DE BEZELGA, Dantes atravessada a vau o que se chamava Porto, e tinha uma estalagem, daí PORTO ESTALAGEM … Porto da Lage com “G.”


SERRAÇÃO DE MADEIRAS, cheia de cascas de pinheiros, (barcos) e os peças de madeira (cubos e paralelipipedos).


SERRALHARIA, O serralheiro Carlos Sousa fixava aros de ferro nas rodas de madeira, aquecendo-os!
TELEFONES, 3, privados: A CP, uso interno; Fábrica do Álcool, uso interno e o Secreto, do vinho a martelo.
UTÓPICO, A água canalisada que só chegou em 1950. A fonte é o ex-libris do Portodalage.blogspot da Prima M.F.M.
VELOCÍPEDE, 2 irmãos ciclistas (Seixos) tinham oficina de reparações e vendas. O Zé Cocó era rival.
WHISKY, A preferência local era pelas equivalentes: a aguardente: de alambique ou a abafada (Jeropiga), fortíssimas. O álcool etílico era desnaturado!
XAROPE, O Dr. Lopes (Farmácia) tinha 2 produtos “sui generis”: o Hemon Bê (tosse) o Fosfoglucer (memória.
YYY = INCÓGNITAS, A “Velha do Chá” e o “Pobre Alegre” faziam 1 lindo par mas evitavam-se!
ZINCO, O Latoeiro e Pastor Adventista João Pena, foi o 1º a descansar ao Sábado e ao Domingo! Também fazia graxa.

Aprendi a noção de contrapeso duma maneira drástica: O Sr Jorge amassava o Pão, mas nem sempre conseguia o pão de 1 quilograma, o tabelado! Assim a D. Júlia, tinha um pão extra, donde cortava a fatia para contrapesar. Eu – dedicado – oferecia-me sempre para ir buscar o Pão. Era tempo do racionamento!
Um dia, vinha encantado a saborear o contrapeso, quando o meu inimigo “Cão do Talho”, se atirou a mim, cobiçando o pão. A minha empregada Engrácia, não achou graça à brincadeira e com um pedaço de tijolo, afastou a fera. Daí a minha afeição pela cor de tijolo… Por gratidão decidi seguir Engenharia, cujas insígnias académicas são as fitas cor de tijolo!
O problema não acabou ali. Ao fugir do cão, fui atropelado por um carro de bois que seguia - em flagrante excesso de velocidade -na Estrada Principal, hoje Rua Dr. Henrique Pereira da Mota.



Assisti a um enterro de pessoa corpulenta. Todos diziam: “Ali vai uma grande Alma!” Será que Alma e Nadegueiro são sinónimos? Na catequese não fui esclarecido…

ANO SABÁTICO, EM COIMBRA Os jovens de agora, gostam de ter um ano sabático a separar o Curso Liceal, do Curso Universitário. Para amadurecer? Tal não é original, pois eu tirei um ano sabático, em Coimbra - entre os 5 anos de observação do meio ambiente, com tempo de sobra para ver os “ninhos” - e a Escola Oficial. Fui fazer companhia aos meus Avós maternos, que por sua vez, acompanhavam o Estudante de Direito e meu Tio, António João. .. No seu 1º ano a sós, vindo do Colégio Nun´Álvares, vulgo Colégio das Caldinhas, Santo Tirso, não atinou com o caminho para a Universidade…
Quando cheguei, o Tio já sabia os caminhos e levou-me a ver a UNIVERSIDADE de Coimbra (Enorme), a Sede da Associação Académica de Coimbra (para quê mesas com panos verdes?), o campo de Santa Cruz, quando a Briosa Académica (AAC) defrontou o Sporting Clube de Portugal, com os 5 Violinos, e por fim, levou-me de “CHORA” (Eléctrico) a ver o Portugal dos Pequeninos, que me encheu as medidas, em especial a universidade!
(De lá veio o Mapa, mostrando a epopeia marítima dos navegadores portugueses. Eu sonhei emular os navegadores, mas tal não aconteceu… Descendentes meus – em meu nome - já cobriram Angola, Espanha (Par de netos), França, Escócia, Inglaterra (1 neto), Holanda, Omã (2 netos), Brasil (1 neta), Dinamarca, Estados Unidos (1 neta), etc.
De Coimbra, importei o jogo de mesa: Futebol de Botões, que poucos conhecem, aparte dos PortoLagenses e do Ançanense Zé Veloso, que também o aprendeu! A vantagem era nossa pois tínhamos uma fonte inesgotável de matéria prima: os “Trapos”, onde a roupa velha - destinada a fazer pasta de papel - era espoliada de todo o corpo estranho, mormente botões!

Nasci no ano do triunfo da Académica sobre o Benfica, nas Salésias para a 1ª Taça de Portugal.

ESCOLA PRIMÁRIA DE PORTO DA LAGE 1945-49 Sou o #2 dum conjunto de 9 crianças – 7 rapazes e 2 meninas. 6 dos 7 rapazes – um morreu cedo - foram alunos da Professora D. Amélia Silva Santos, que nos aturou durante cerca de 20 anos (1943/63). Sendo o 2º, tive a tarefa facilitada: bastava seguir as pisadas do mais velho. Ali aprendemos as primeiras letras e os números.
Minto! O Henrique, aprendeu as letras, ao colo do Pai, lendo os cabeçalhos do jornal “O Século”, dando-lhe nomes mais apropriados: “T”= martelo, “O” = roda, o “C”= roda partida… Até escreveu o que poucos conseguiram ler correctamente: HVTA (A gaveta!).
O meu irmão mais novo, o Luís Manuel, preferia os números, fossem eles árabes ou romanos. Desde tenra idade, se sentava no seu poleiro preferido, ardósia sobre a mesa, molhava a ponta do lápis de pedra com saliva, punha a língua de fora e esperava o desafio… “Escreve o 3” e ele olhava para o horizonte, para se inspirar e gatafunhava o “3” e desenhava o “III” e assim por diante… Até que, convencidos que ele dominava a técnica, lhe pedimos o “13”. Debalde,,, É que o nosso relógio de sala, convenientemente colocado na linha de horizonte, só tinha no mostrador os números de “1” a “12” tanto em algarismos como em números romanos!
# Também reforcei o meu entendimento da noção de contrapeso, só que aqui não davam côdeas mas sim “bolos” da menina dos 5 olhos!
Fiz o exame da 4ª classe da Instrução Primária, em Tomar e antes do exame de Admissão ao Liceu, no Liceu Nacional de Santarém, recebi o prémio raro, que também tinha sido dado ao Henrique: Aulas de Condução, dadas pelo Pai! “Vai à Mamã e pede uma almofada…”
Naquele tempo, em que não havia motor de arranque, deixar o motor ir abaixo implicava usar a manivela. Isso exigia um certo cabedal! Felizmente o Austin MN-36-95 era fácil! Para dosear o ar, puxava-se um botão que se mantinha na posição correcta entalando uma caixa de fósforos… O uso prolongado revertia nos “Malefícios do Tabaco”, doença de que o meu Pai só curou aos quarenta e tal anos!»
                                                                                  Augusto Carmona da Mota
                                                              ( Extracto do discurso do seu 80º aniversário, 03.03.2019)
   

17 de outubro de 2019

O Elefante Branco



                                                                    
Gravura de Hanno em um Panfleto de Roma (retirado da Wikipédia)







"14 de fevereiro de 1570 faleceu nicolau dias morador em beselga por ser freguês se mandou enterrar no adro da igreja de santa maria madalena fez testamento a que me reporto por sua alma mandou que ao enterramento se dissessem(?)  ? missas uma? cantada e duas rezadas _? ofertadas com pão vinho(?) cada um? segundo costume da igreja e um oficio inteiro de nove lições de sete salmos tudo segundo do costume da igreja e ao mês outro tanto e ao ano outro tanto cumprindo-se(?) a vontade do defunto e no cabo d(?) a quitaram conforme feito? ut supra. [aa] S.Lousado"(1)





"aos doze de fevereiro de 1576 faleceu simão fernandes pouzão fez testamento que mandou que ao dia de .... se dissessem quatro missas três rezadas e uma cantada ...... um oficio inteiro de nove lições  segundo do costume da igreja ..."


Nicolau Dias é meu 11.º avô pelo menos duas vezes, por via de seu filho António Dias, o preto (morador no "seu casal" ou no "casal de Nicolau Dias"), cujos  filhos Manuel Dias e Antónia Dias foram ascendentes, respectivamente, de meu bisavô Augusto Mota e de minha bisavó Maria José Sousa Rosasua mulher. Manuel casou-se, em 22.11.1620, com Domingas Jorge, do Paço, e, entre esta localidade e Além da Ribeira se desenvolveu a sua geração, enquanto sua irmã Antónia já teria casado com Álvaro Nunes, das Moreiras Grandes, em 27.11.1610, e dado origem a uma dinastia em Assentis que veio, no fim do sec. XIX, a  encontrar-se com os descendentes do irmão, em Porto da Lage.

Simão Fernandes Pouzão (de família talvez proveniente dos Pouzos, cujo nome terá adoptado como apelido para se distinguir de outros Fernandes contemporâneos), natural dos Casais, onde toda a sua geração permaneceu até 1712, quando se ligou a Catarina Lopes, do Carvalhal Pequeno, é meu 12.º avô, também por via de Augusto Mota .

Ambos, Nicolau e Simão, são homens da primeira metade de quinhentos. Nicolau morreu cedo, ainda com filhos pequenos, Simão já com netos, pelo que deveria ser mais velho. Já teria nascido quando, pelas ruas de Roma as multidões olhavam extasiadas o deslumbrante desfile, nunca visto, de jóias e tecidos exóticos, das onças, das panteras, dos leopardos, dos coloridos papagaios e do albino elefante Hanno? E, os dois, teriam sabido desta aparatosa "Embaixada" oferecida ao Papa pelo seu rei D.Manuel, para demonstrar a riqueza e a glória do seu país? E, alguma vez, terão dado conta de tanta grandeza ou terão beneficiado alguma coisa dela?
Tanto um como outro terão vivido a lutar com a natureza, a fazê-la produzir e a louvar o Senhor quando o conseguiam. O Senhor que não os poupava, que lhes trazia fome, seca, intempéries e doenças, lhes levava os filhinhos e a mulher de parto, deixando os restantes órfãos. Mas com Quem não deixavam  de contar na desgraça, a Quem agradeciam na bonança e se encomendavam quando partiam para o lugar que lhes traria, finalmente, a prosperidade eterna pela qual tinham esperado e penado neste mundo. Nenhum deles terá abandonado a sua terra ou a freguesia, não terão pertencido àquele povo néscio enganado pela Fama e Glória soberana, sagaz consumidora conhecida, de fazendas, de reinos e de impérios,  " Por quem se despovoe o Reino antigo, se enfraqueça e se vá deitando a longe?" como profetizava o sábio  velho do restelo.
Estes avós, meus e de milhares que os desconhece, fazem parte do povo que ficou, que não embarcou, mas que viu irmãos e filhos partirem,  em busca dos Hanno e dos papagaios em terras longínquas. Que esperou, velando pela pobre pátria, e os viu voltar,  às vezes, outras nem isso, ricos, pobres, estropiados, heróis ou mártires, e os acolheu. Ontem e sempre (MFM)




Nota: Extractos de assentos de óbito retirados daqui

(1)Agradeço a ajuda na leitura deste assento a Edmundo Simões, profundo conhecedor e estudioso das genealogias de Torres Novas e outras, aproveitando a ocasião para lhe agradecer, publicamente, a disponibilização de grande parte da árvore dos meus antepassados de Assentis, muitos dos quais se cruzam com os seus. 

6 de outubro de 2016

Quinta de Porto da Lage I



Continuando o tema do último post sobre a  Quinta de Porto da Lage trago hoje aqui a apresentação gráfica possível (quero dizer, dentro das minhas possibilidades- feita por mim!) da quinta, tendo como base os mapas por satélite google.
A primeira imagem representa o desenho do limite total da quinta e dos restantes terrenos propriedade de João Manuel de Sousa, este teria também terrenos do lado de "lá" da linha do caminho de ferro, que não estão aqui assinalados por não serem considerados importantes, neste caso.
A segunda é uma imagem aproximada de parte de terrenos da quinta e de outros, que deram origem à "parte urbana" de Porto da Lage.




Linha vermelha -contorno de parte da quinta; Linha amarela -contorno de outros terrenos de João Manuel de Sousa; A-terrenos comprados por Manuel de Sousa Rosa em 1883; B-terrenos comprados por Manuel de Sousa Rosa em 1895; C-outros terrenos; 1-casa de Manuel de Sousa Rosa Júnior construída em 1886; 2- casa de Augusto Mota construída em 1889; 5-taberna de Faustino dos Santos adquirida em 1893; 3- casa de Ana Sousa Rosa construída em 1898; 4- casa de António Sousa Rosa Júnior construída cerca de 1900.


Através desta figura podem ver-se as construções originais da quinta, o moinho e a casa de morada da quinta (casa dr. Sousa) que teriam outras pelo meio, como podemos ver  neste post . O edifício seguinte seria, novo ou aproveitamento de anterior, aquele onde se instalou a CUF na data ainda lá inscrita 1877?. Vieram depois, após a venda da quinta, as casa de Manuel Sousa Rosa Júnior (contou-me há anos a Isaura Rosa que a sua seria a primeira casa de PL, segundo lhe tinham dito no licenciamento de obras da Câmara Municipal, seria a primeira a ser licenciada?) e de Augusto Mota, que continuarão sós até 1893, data em que serão acompanhados pela taberna de Faustino dos Santos, a qual foi instalada numa construção pré- existente.
Estava, portanto, certo o Dicionário Postal e Chronographico do Reino de Portugal ao referir como três o número de fogos existentes em Porto da Lage em 1894. 
No inicio do século XX mais construções surgem: outras duas casas de filhos de MSR e a casa de Mendes Godinho construída no local (ou próximo) do Moinho, que será a única a não pertencer à família de MSR  em todo o território da antiga quinta, durante muitos anos.
Nesta década faz-se notar também em Porto da Lage um casal que vai tendo vários filhos - os Sousa Orfão, o qual, pela localização das casas actuais desta família, se deve ter instalado na zona denominada na figura como C.
A partir de meados da segunda década de XX assiste-se ao crescimento da povoação, a rua principal começa a tomar forma com a construção de casas destinadas à nova geração, filha dos donos das primeiras.





Anais do Município de Tomar de Amorim Rosa, vol. 1901-1925


"1906 - 4 de Outubro - a câmara deliberou proceder a pequenas reparações no caminho público de Porto da Lage (fls. 130)
1907 -7 de Fevereiro - o vereador João Mendes Godinho foi autorizado a proceder às reparações do caminho público de Porto da Lage (fls. 137)
1908 - 20 de Fevereiro - a câmara deliberou proceder à reparação do caminho público de Porto da Lage ao Paço até à quantia de 50$000 réis (fls.180)
1918 - 20 de Maio - a junta da Madalena pediu com urgência, a reparação da estrada que passa por dentro do lugar de Porto da Lage e que vai desde a estrada de macadame até à ribeira da Beselga. (fls. 443)"





Pelos anos trinta os baixos das casas já são, nalguns casos, destinados a comércio, a pequenas industrias (sapateiro, latoeiro) e serviços, enquanto se assiste à edificação de casas destinadas a arrendamento e ao alindamento das já existentes, integrando portões que ostentam letras com iniciais dos nomes dos proprietários e datas.

Em 1928 tem início o funcionamento do ensino primário, o que significará  não só a existência de crianças suficientes na localidade em idade escolar, como o reconhecimento da centralidade de Porto da Lage como um futuro centro educativo da freguesia. Apesar de, precisamente nesse ano, a estação de Paialvo ter deixado de ser a principal via de acesso a Tomar, não parece, no meu ponto de vista, que Porto da Lage tenha perdido algo da sua vitalidade e crescimento com esse facto. A fábrica do álcool e a consolidação da localidade como centro comercial da região, contribuíram, mais do que a estação, para o fulgor de Porto da Lage, de cuja  vida social já falaram como ninguém, neste blog, Dulcinda e Ilídio Teixeira, que durou até ao fim dos anos sessenta e que tanta nostalgia traz ainda a tanta gente. (MFM)
 ...continua ...

17 de setembro de 2016

Quinta de Porto da Lage *


Ao meu avô que aqui nasceu completam-se hoje 124 anos.

                                                                       Prólogo

A designação porto da Lagem aparece no século XVII associada ao seu moinho de fazer farinha. Sabe-se o nome do moleiro daquela época, da mulher, da data do baptismo dos filhos. O pequeno território, situado na margem direita da Ribeira da Beselga, ladeado  pela estrada real proveniente de Coimbra desde a ponte onde o Ribeiro da Longra desagua naquela Ribeira e o local onde a estrada se começava a afastar para Paialvo e deixava de ser termo de Tomar, tudo indica ser a base do que se passou a chamar no final do século XVIII, também, quinta de Porto da Lagem. 
De acordo com os registos paroquiais da freguesia da Madalena, no século XVIII verifica-se alguma vida social em Porto da Lage: os moleiros e família, os administradores e criados da “quinta” e mais, "os assistentes" e o pessoal de passagem pela estalagem que, sabemos, tem autorização de funcionamento em 1747 ignorando-se se existiria antes. Assiste-se nesta época a grande confusão: indiferentemente se chama Quinta de Porto da Lage à propriedade de Manuel Pereira de Sousa – o Casal ou Quinta da Belida (ou Velida) - ou à Quinta de Porto da Lage ou moinho de Porto da Lage de Raimundo José de Sousa.

                                                               I
                                                       Os Sousa 

Raimundo de Sousa, natural de Paião, hoje Figueira da Foz então Montemor-o-Velho, terá herdado a quinta ainda criança, tendo, no entanto, apenas passado a habitá-la por volta de 1780, já desembargador aposentado, quando se casa. Dos seus numerosos filhos será o mais novo, João Manuel de Sousa, nascido em 1798, o que vem a ficar com a quinta. 
De João Manuel conhece-se além das datas de nascimento e da morte (1871) que terá vivido com falta de dinheiro (as hipotecas e as dívidas em dinheiro à Misericórdia de Tomar provam-no) e terá mantido relação marital com uma rapariga dos Vales, Maria José (ou Maria da Piedade) de quem tem quatro filhos e com quem casa em 1861, data a partir da qual legitima os filhos (até então expostos). Desconhece-se porque não se casou antes e mais, por que só legitimou os filhos sendo estes já adultos. Será coincidência mas o certo é que, pouco depois do seu casamento, um cunhado, um tal Bacalhau irmão da agora mulher, lhe paga uma avultada hipoteca. Concluir que o pagamento desta dívida terá servido, também, para pagar a moralização da família é especulação que abonará pouco o carácter do senhor, que já Lá está há muitas décadas, pelo que ficaremos por aqui. Mas que a coisa está mal explicada está.
Dos quatro filhos é sobejamente conhecido João Maria de Sousa (n.1836), o médico e historiador, cujo nascimento a tradição atribui ter sido em Porto da Lage, o que eu acredito embora nenhum dos documentos relevantes da sua vida o ateste; consta como nascido em Tomar (o que fará sentido pois foi baptisado como exposto em S.João Baptista) no assento de casamento, e como nascido em Paialvo na certidão de óbito. O seu irmão Henrique será o primeiro chefe da estação de caminho-de-ferro de Paialvo, não tendo as duas irmãs, Maria da Conceição e Margarida da Glória, que se saiba, algo que se destaque nas suas vidas.
Após a morte de João Manuel, a viúva e três dos filhos continuam a morar em Porto da Lage, enquanto João Maria, casado, vive em Tomar, até que, em 1879, a família decide vender a quinta. Após a morte da mãe, que terá ocorrido cerca de 1893, tem-se notícia que Henrique é funcionário das alfândegas no Porto e as irmãs vivem em Coimbra, enquanto João Maria permanecerá em Tomar até à sua morte, que ocorrerá em 1905. Por essa época já terá acabado, de vez, a ligação da família Sousa a Porto da Lage. Por aqui viveram pouco mais de cem anos.

Jornal "Emancipação" -28.12.1879

                                                                II
                                                    Os Sousa Rosa

Em 1883  Manuel de Sousa Rosadono da Quinta da Belida,  compra uma propriedade rústica e urbana denominada Quinta de Porto da Lage, próxima à estação da via férrea de Paialvo, na freguesia da Madalena neste concelho [Tomar], que consta de terra de semeadura, vinha, uma morada de casas e diversas acomodações agrícolas e um moinho ou azenha na Ribeira, confrontando a Norte com António Gonçalves, Poente e Sul com estradas, Nascente ...  pagando um conto dezasseis mil seiscentos e trinta e dois réis aos vendedores e ficando com o encargo da hipoteca à Companhia Geral do Crédito Predial Português no valor de um conto, novecentos e oitenta e três mil trezentos e sessenta e dois réis.


Assinaturas do representante dos vendedores e do comprador, na escritura de compra e venda  da Quinta de Porto da Lage.


     A propriedade rústica e urbana denominada Quinta de Porto da Lage, conforme consta da escritura que transcrevemos, para além de não ser um corpo, pois tem três números matriciais, também, pela forma como é caracterizada - "propriedade denominada quinta ...",não parece ser, "institucionalmente" uma quinta, antes se chamará assim por tradição e hábito. A "quinta" também é mais pequena do que se julgaria, pois alguns terrenos contíguos, embora do mesmo dono, não fazem parte dela. É o caso de uma terra de semeadura com árvores denominada a Carreira separada da quinta pela estrada, que Manuel de Sousa Rosa também compra  e que consta da mesma escritura da quinta. Igualmente a casa que, suponho, terá sido a antiga estalagem não integra a quinta, continua na posse dos Sousa e só será vendida a Faustino dos Santos em 1893 para que este nela instale uma taberna, permanecendo os antigos donos ainda com o pátio mas comprometendo-se a não o utilizar de forma a fazer concorrência ao negócio de Faustino! 
Outro caso é aquele em que, em 1884 um tal Bernardino dos Santos Carneiro, de Lisboa, comprara à família Sousa " um talho de terra de semeadura no sitio limite da Quinta de Porto da Lage em cujo terreno está construído um prédio com fábrica de destilação e adega e mais arrecadações que confronta a norte e poente com a estrada .... a nascente com o ribeiro".Esta propriedade (1)será também comprada, em 1895, por Manuel de Sousa Rosa e por um tal Sousa, da Beselga. 
Aquele Bernardino teria também vendido, a Manuel Mendes Godinho, um ano antes, o armazém que conhecemos hoje como "da União Fabril" o qual, atendendo à data que ainda ostenta, deverá ter sido comprado por si, Bernardino, cerca de 1877, à família Sousa, também ele não fazendo  parte da quinta, conforme está comprovado.
Estranhos contornos tinha a famigerada quinta!
Manuel de Sousa Rosa e a mulher são agora donos e senhores da chamada Quinta de Porto da Lage e de alguns terrenos adjacentes, da Quinta da Belida e de outras fazendas avulsas dispersas pelas Sobreiras, Gaios, Galegos,etc. São grandes lavradores à moda antiga, com grandes olivais e figueirais, terras de semeadura, vinhas e hortas na várzea da ribeira, mas será que os tempos ainda correm de feição para quem só depende da agricultura e pretende deixar este modo de vida aos filhos? O casal pensa que sim e quer ajudá-los proporcionando-lhes já os meios necessários enquanto são novos, pelo que em 1894 faz uma escritura de doação de parte dos seus bens, entre eles a quinta de Porto da Lage, a quatro dos seus sete filhos: Manuel, Maria José, António e João, sendo que os dois primeiros já viveriam na quinta desde 1886, no valor de 750 000 réis para cada um (420 000 euros?). Mas os seus planos saem gorados, afinal os tempos, e os planos dos filhos, já são outros.
O filho João, a quem calhara a “fatia” correspondente ao moinho, poucos meses depois vende  a sua parte ao irmão Manuel e ao sogro Manuel Mendes Godinho. O que terá pensado (e até dito!) o pai desta apressada vontade do filho se desfazer do que lhe fora oferecido, embora enterrado nos segredos do passado, pode imaginar-se! enfim, pelo menos a cidade de Tomar terá lucrado com o desplante (seria graças a isso que foi financiada aquela a que hoje se chama Casa dos Tectos?).
Contas feitas, a antiga quinta, e só essa, passa a estar, nos finais do sec.XIX, dividida entre Manuel de Sousa Rosa filho, Maria José casada com Augusto Mota e Manuel Mendes Godinho, cujo filho construirá o casarão cujas ruínas ainda são bem visíveis, presumindo-se que Manuel de Sousa Rosa tenha conservado ainda alguma parte, como a "morada de casas" pois será uma outra sua filha, Ana, quem as virá a possuir (doação posterior ou herança). As propriedades resultantes da divisão da quinta deverão ter sido, então, sujeitas a novos registos cadastrais, os quais, por sua vez, serão subdivididos na geração seguinte (só a parte de Augusto Mota terá sido dividida em outras quatro ou cinco partes), forma em que permanecem, acho eu, até hoje. A Quinta é uma memória.  Os descendentes de Manuel de Sousa Rosa, casando entre si, trocando e vendendo entre si, vão preservando, embora divididos, a maioria dos terrenos da antiga quinta até aos anos oitenta do sec. XX, período a partir do qual começaram a alienar os bens. Mais cem anos.                                               

                                                              Epílogo 

 ... ao contrário dos Sousa, que desapareceram da face de Porto da Lage, os descendentes dos Sousa Rosa, o sobrenome actual não importa, ainda se agitam por ali, em corpo ou em espírito, fixos ou nómadas, almas errantes estrebuchando, aflitas, à procura das raízes. Se alguém, depois de 2080, continuar esta história que diga o que lhes aconteceu. (MFM)

(1)- onde fica, quem sabe?

22 de maio de 2016

O Paço da Comenda


A Ordem de Cristo, enquanto herdeira da Ordem dos Templários, acolheu os bens que haviam pertencido a esta Ordem e que tinham tido origem nas doações dos monarcas como contrapartida , à semelhança do que acontecia com as outras ordens militares, do apoio dado no combate aos Sarracenos. O território doado, que incluía castelos, vilas, lugares, igrejas, etc, consistia num domínio senhorial no qual a Ordem, além de usufruir dos rendimentos, exercia direitos jurisdicionais e eclesiásticos.
Os bens afectos à Ordem estavam divididos entre aqueles que eram reservados ao Mestre ( da Mesa Mestral) e às Comendas.
As Comendas eram um espaço territorial organizado como um senhorio, nas quais o Comendador, um freire cavaleiro nomeado pelo Mestre, exercia a autoridade senhorial em nome daquele e usufruía dos seus bens e rendimentos. A comenda era entregue a título vitalício e de recompensa por bons serviços prestados. O Comendador não deveria acumular mais do que uma comenda, deveria fazer, mal tomasse posse, um inventário da sua comenda (tombo da Comenda) e residir na comenda, isto é, ter lá os seus “aposentos”.
O número de comendas da Ordem de Cristo variou ao longo do tempo, sabendo-se que em 1326 eram trinta e seis e cerca de 1510 já seriam cinquenta e nove, o que terá a ver com o aumento dos rendimentos da Ordem que beneficiava então dos dízimos das ilhas dos Açores e Madeira, da vintena do comércio da Guiné e Índia (ouro, escravos e outras mercadorias) e de muitos outros rendimentos provenientes da expansão ultramarina.

Do livro "Definições e estatutos dos Cavaleiros e freires da Ordem de
N.S. Jesus Cristo, com história da origem e principio dela"
impresso
em Lisboa por Pedro Craesbeeck em 1628,  

Mas nas Comendas antigas e situadas no território europeu o valor fundamental das rendas provinha das propriedades agrícolas nelas existentes, exploradas directamente pelo Comendador ou aforadas, e que asseguravam rendimentos em numerário, bens, géneros alimentares e outros serviços.
A Comenda da Beselga, da qual temos notícia já em 1326, suspeitando-se que já existiria no tempo da Ordem dos Templários, teve como comendadores conhecidos: em 1426 Frei João Afonso, em 1439 Frei Diogo Afonso, em 1475 Frei Rui Velho, em 1504 outro Frei Rui Velho, em 1560 Frei António de Saldanha, em 1607 dom Frei Francisco de Almeirim e em 1619 parece ter acabado a nomeação de comendadores freires pois a Comenda da Beselga é doada ao Conde de Soure.

No registo efectuado pelo escrivão da visitação Rodrigo Ribeiro em 17 de Outubro de 1504 a Comenda da Beselga tinha o seguinte património pelo qual recebia as seguintes rendas e foros (quadro retirado de “A ordem de Cristo (1417-1521)" pags. 196,197 ):






O território em que se situa actualmente Porto da Lage, pelo menos o localizado  nas margens da ribeira,  pertencia à Comenda da Beselga. Comenda limítrofe era a do Paul e Cem Soldos que deverá ter surgido mais tarde atendendo a que ainda não é nomeada em 1326.
Casal ou Quinta da Belida pagava foro à Comenda da Beselga pois em 1658 o licenciado Diogo Alvares de Sousa confirma o aforamento que tinha sido celebrado com o seu avô Jorge Fernandes, por três vidas. Em 1761, o seu bisneto Manuel Pereira de Sousa volta a confirmar o foral. Com o liberalismo, uma vez que a Ordem de Cristo foi "nacionalizada", o foro terá continuado a ser pago, neste caso à Fazenda Pública, terá cessado ou sido comprado?
A tradição popular atribui como sede da Comenda, o local onde o Comendador teria os seus aposentos, o seu Paço portanto, a aldeia que se designa, muito apropriadamente,  de Paço da Comenda. Será? Não encontrei nada que o confirmasse, também nada que dissesse o contrário. Fiquemos-nos pois por o que o povo diz, enquanto não aparece uma douta colaboração que nos esclareça.
A tradição indica também a casa onde terá residido o Comendador ou na qual, pelo menos, eram entregues e recolhidos os bens entregues pelos foreiros àquele. Casa essa em que a alegada "traça medieval" terá existido até há tempo suficiente para ainda haver gente com memória da mesma.
Outra "fonte histórica" associada à comenda, que foi removida do Paço da Comenda há pouco mais de quarenta anos com pesar por parte dos seus habitantes, alguns dos quais ainda hoje lamentam esta perda, é a "pia " que se encontra no adro da capela de S.João em Porto da Lage, mais propriamente nos Vales de Cima. Acredita-se que seria uma tulha em pedra onde se guardavam os cereais. Naturalmente não tenho resposta para isto mas, a ser assim, não será um bem público ou com interesse público  e  não deveria, pelo menos, ser registada em e por quem de direito? Convirá estudá-la ou será coisa tão banal que não valerá a pena? A ser assim, repito-me, porque não voltar ao local onde a memória e o coração ainda a mantêm? (M.F.M.)



Reprodução da "Casa do Comendador" num painel de azulejos existente na sede da Associação 
de Cultura, Desporto e Solidariedade  Social de Paço da Comenda, elaborada a partir de um 
desenho de Augusto Bento da Silva.



A "Casa do Comendador" com o aspecto actual. Fica
 situada no "Canto do Rouxinol."


                                             



O Comendador é lembrado na rua ao lado.

A "pia" da Comenda no adro da capela, nos Vales.


                                          


Bibliografia consultada: Silva, Isabel L. Morgado de Sousa e, A ordem de Cristo (1417-1521), revista Militarium Ordinum Analecta, publicação anual do Seminário Internacional de Ordens Militares, Instituto de Documentação Histórica, Faculdade de Letras da Universidade do Porto

19 de março de 2015

Dia do Pai


"Dia 19 de Março comemora-se em Portugal o Dia do PaiCelebra-se no dia de São José, marido de Nossa Senhora, mãe de Jesus."


Augusto Pereira da Motta, 16.08.1858 - 27.01.1915

Augusto Pereira da Motta, que foi buscar o nome ao padrinho Augusto Rodrigues, de Paialvo, nasceu no Paço da Comenda, filho de António Pereira da Motta, também do Paço e de Joaquina de Jesus Ferreira, da Beselga, freguesia de Assentis, Aos 25 anos, solteiro proprietário, reza o assento, casa-se com Maria José, quase a completar 19 anos, empregada na lida de sua casa, moradora na Quinta da Belida. Como se terão conhecido, o que os terá levado ao casamento? Ele ter-se-à encantado com os olhos claros dela, ele já usaria aquele chapéu e ela achou-lhe graça?

Já estou a ver o filme todo: [era Março, o primeiro domingo de bom tempo, a Primavera de 1883 anunciava-se, cheirava a alfazema e à terra lavrada que começava a ser preparada para a batata e o milho (espero que o Borda d'Água esteja certo) e Augusto flanava de fato domingueiro, com os amigos, fazendo tempo cá em baixo, à espera para subir a ladeira e assistir à missa. De súbito reparou numa das raparigas do grupo que se aproximava, vindo das Sobreiras. Já a conhecia, como ela saberia quem ele era, todos se conheciam na terra, mas há um dia, o dia e hora exactos, em que se repara. E a subida da ladeira e a missa já foram diferentes, a primeira mais acelerada do que o costume, a segunda com a atenção mais focada do que nos ofícios anteriores. Desta vez, já tinha a vista fixa num objecto, não andava à cata desta ou daquela. Mas tivera pouca sorte à saída da capela, perdera-a de vista na confusão da saída e só a tornara a vislumbrar já ela ia longe, confundida entre outras. O mais certo, agora, era só voltar a vê-la no domingo seguinte.Que ela morava na quinta, não cirandava por ali, não ia à fonte nem à venda. Mas já magicava um plano. Na 4.ª feira, à vinda da estação na carroça com mercadoria que lá ia levantar, havia de  passar pela quinta, até lá cogitaria um pretexto para o fazer. Chegado o dia, afinal, nem tinha sido preciso apresentar a desculpa preparada, ela estava sozinha no tanque, perto só uma serva semeava na horta.Nem pais nem irmãos à vista.A conversa fora sobre coisa nenhuma mas, quanto a ele, chegara para se fazer entender. O que ele não pode saber é que não partira a tempo de a sua carroça não ser vista, ao longe, pelo pai dela que regressava do extremo da quinta. Perguntada, Maria José respondera quem fora o visitante, sim, mas acrescentara que não dissera ao que viera.  O pai não insistira mas ficara a pensar no caso. Ou muito se enganava ou o que o figurão queria estava ali à sua frente, a ver se o aviava com respostas rápidas. Impunha-se estar atento e, para já, não espantar a caça. Que ela era boa menina e nunca lhe dera preocupações, mas sabia-se lá os estragos que a lábia do outro não fizera já na cabeça dela? Que, conversa, tinha ele, e não só para as mulheres, enrolava qualquer desprevenido que se fiasse nele, não era em vão que lhe chamavam o cigano. Mas que empregasse o palavrório nos negócios, se lhe fazia bom proveito, e lhe largasse a porta de casa. Para que raio lhe havia de dar, vir-lhe desencaminhar a rapariga! E, enfurecido com o rumo que os pensamentos estavam a levar tratou de despachar a filha e de se encontrar sozinho com a companheira, a fim de desabafar, porque não é bom manter um homem ideias negras muito tempo a trabalhar dentro da memória. Mas a mulher deu pouca importância à coisa, que eram fantasias dele, que deixasse estar a rapariga que ainda nem se apercebera que havia homens no mundo, que ela, mãe, não dera por nada, e se não dera era porque não havia. E, se fosse, o que é que tinha? Queria ele a filha para freira? não queria! Se não fosse este era outro, e o rapaz nem era dos piores. Vinha de boa gente, tinha de seu, o que é que ele queria mais? Era aldrabão? Que ela soubesse não roubava nada a ninguém, tinha talento para falar, pois então! Burro era quem se deixava levar, ora essa, que se acautelassem, ele não obrigava ninguém! Manuel estava perplexo com o pragmatismo da mulher! Então já um homem não deve avaliar o génio do genro que quer para a filha? Que tinha de seu?! Tinha o que a família da mãe lhe deixara que, esses sim, eram gente trabalhadora e honrada. Que o pai enquanto não gastara tudo o que era dele não descansara, o filho tinha a quem sair, que conhecera o António Mota, que Deus já lá tinha, sempre folgado e com a mania que era fidalgo. - Gente muito pouco amiga de vergar as costas, convence-te disso, mulher. Vê lá se é isso que queres para a tua filha. Vê lá se depois dos sacrifícios de toda a vida que tu e eu fizemos, queres que uma parte vá parar à mão de malandros. Pensa bem, porque enquanto eu viver e se fizer nesta casa o que eu mandar, gente daquela laia não põe cá os pés! A mulher achou por bem mudar de estratégia, conhecia até onde podia contrariar o marido. Quando ele tocava no sagrado trabalho e nos sacrifícios, era escusado. Homem da terra, para ele o único trabalho honrado era o da lavoura. Desconfiava de quem não trouxesse enxada ou foice na mão. Deus lhe perdoasse, que é até com os padres embirrava para já não falar dos doutorzecos, como ele dizia, filhos de lavradores como ele, que, depois de gastarem anos em Coimbra, continuavam preguiçosamente a viver da casa paterna sem lhes acrescentar nada, antes a delapidá-la. Acalmou portanto o marido, convencendo-o que aquela era uma conversa no ar, sem fundamentos. Estavam para ali a divagar e a zangarem-se, sem razão nenhuma.
Mas havia razão, como Manuel Sousa Rosa intuíra, Augusto não desistiu e o namoro pegou. Perante as dificuldades levantadas, que a mãe dela, quando se convenceu que as desconfianças do marido tinham fundamento, cerrou de tal modo fileiras que ele nem vê-la quanto mais falar-lhe, Augusto não hesitou e resolveu ir entender-se com o futuro sogro. Foi encontra-lo à beira do ribeiro, a cortar canas para estacar o feijão e veio de lá, liminarmente, corrido. Interrompera-o ainda nem a meio chegara do seu discurso preparadissimo. Sim senhor, acreditava que as intenções dele eram boas, melhor fora que não. A enxada que ele estava a ver, ali, nas mãos dele, já o teriam rachado se suspeitasse outra coisa, mas a filha não estava para casar, era muito nova. E, quando chegasse a ocasião, ele, seu pai, lhe arranjaria marido conveniente. O que era marido conveniente, pois ele atrevia-se a contestá -lo? Mostrava bem o desavergonhado que era. Pois ia dizer-lhe quem não era nem seria nunca conveniente! – Estava mesmo agora a pô-lo daqui para fora, saia já da minha frente!
E Augusto saíra, mais zangado do que triste. Tinha a certeza de conseguir a Maria, era uma questão de tempo. Não costumava ter dúvidas, quando se lhe metia uma coisa na cabeça. Começavam era a aborrecê-lo os trabalhos para o conseguir. E, embora tivesse previsto que a conversa com o pai dela não viesse a ser suave, porque estas matérias nunca eram fáceis e porque no seu caso, não percebia porquê, o sogro não gostava dele, nunca imaginara que as coisas correriam assim. Diabos levassem o velho, com que raiva o espantara dali para fora! Mas à medida que se ia afastando do local onde se dera o encontro, ia-lhe passando a zanga e começava a achar graça à exaltação do homem. Como se agigantara aquela estatura baixa, embora entroncada, e como os olhos esverdeados tinham faiscado quando lhe perguntara qual seria o marido conveniente para a filha? Até lhe dava vontade de rir. Bom, já lhe estava a voltar a boa disposição. Não conseguia ficar irritado muito tempo. Ia dali para casa falar com a mãe, ela havia de se lembrar de algum parente lá de Assentis que se desse bem com a família da sua Maria e que interferisse a seu favor. Tudo havia de correr bem. Mais logo trataria de lhe mandar recado para se encontrarem, já há dois dias que a não via, estava a ficar com saudades do sorriso dela...]
 ...Bom, por mim o filme acabou, não vejo mais, adivinho que se segue a pepineira habitual, contrariedades, choradeiras, ameaças, o costume, até ao apogeu final. Os noivos levaram a sua avante, os factos comprovam-no. A 10 de Outubro do mesmo ano casaram-se na Igreja de Santa Maria Madalena. Foram testemunhas José Lopes Larangeira, "feitor do senhor marquês de Thomar" e um tal Dom Jorge Arcos, negociante, natural do México, representado por João de Sousa Rosa, tio da nubente e "outras muitas pessoas que presentes estavam". A cerimónia deve ter sido "importante", como se dizia então, ou porque o pai da noiva não quis ficar mal visto e se encheu de brios ou porque Augusto Mota, afinal, não estaria assim tão mal de finanças.
Os filhos sucederam-se, o primeiro, Manuel, que ainda nasceu no Paço, local em que os pais ficaram a morar, Ana, que nasceu na Quinta da Belida, em casa dos avós, seguindo-se os outros já em Porto da Lage, onde Augusto construiu uma casa para a família viver, pois a mulher não teria aguentado continuar a habitar na casa do Paço devido ao cheiro do negócio de curtumes a que o marido se dedicava: Soledade (cujos netos estão, a maioria, na diáspora)que veio a casar com o primo António Sousa Rosa, João, Maria, Maria da Conceição, António, Henrique e mais dois, falecidos ainda crianças.
Todos os filhos ficaram a viver em Porto da Lage, alguns casando com primos direitos maternos, contribuindo não só para o povoamento da terra mas também para o seu desenvolvimento económico e social. A agricultura, o comércio, a industria, conheceram um grande incremento em Porto da Lage graças aos filhos de Augusto Pereira da Motta. Será, por isso, justo e oportuno lembrá-lo neste "dia do pai" (MFM)


Imagem cedida por H.C.M

P.S-Augusto Pereira da Motta tinha três irmãos que continuaram a viver no Paço: Ana (n.1857) casada com Agostinho Ferreira (pais de Maria, Henrique, Augusto, Manuel, Joaquim, António e Agostinho - os poetas), Henrique (n.1861) terá casado tarde e não terá tido filhos e Manuel (n.1864) casado com Ana Rosa (pais de Maria, João, Georgina e Augusto). Ao contrário de Porto da Lage, em que já não moram descendentes de Augusto, sei que no Paço ainda vivem descendentes dos seus irmãos. Para eles as saudações desta prima.(MFM)