Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

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1 de abril de 2016

Malhoa

                         

A passagem do comboio, José Malhoa,1896 .
Teria sido em Porto da Lage, quando chegou para se dirigir a Figueiró dos Vinhos,ou quando de lá vinha e apanhou o comboio na estação de  Paialvo, para voltar para Lisboa,que o pintor se inspirou para esta obra?

José Malhoa (1855-1933) é pintor residente deste blog, ele e mais outros pintores naturalistas portugueses seus contemporâneos ou mesmo alunos. As suas cenas de género e de costumes, o país rural de fins de oitocentos e do princípio do SEC.XX (que não terá diferido muito do Portugal que conhecemos há cinquenta anos), que tão bem retrata, ilustram bem, acho eu, os textos que por aqui temos mostrado. As suas figuras de gente simples cheia de sentimento e humanidade, sempre envolvida na cor e na luz de Portugal, sensibilizam-me muito.
Mas, além da paisagem e do quotidiano do homem do campo, Malhoa pintou retratos da aristocracia, nus e aventurou-se no bas- fond urbano, retratando, em cores mais fortes e sem sol, os Bêbados e o famosíssimo Fado. "o mais português dos quadros a óleo" como lhe chama a letra do fado propriamente dito que o imortalizou e ao autor. Sobre aquele vale a pena, pelo pitoresco, conhecer os modelos Amâncio e Adelaide da Facada e a forma como foram protagonizando o retrato final.
Ainda em vida, Malhoa conheceu a glorificação do seu trabalho, foi homenageado pelo poder, considerado pela crítica em 1907 como o «mais nacional de todos os pintores portugueses», sendo, simultaneamente admirado pelo público em geral e extremamente popular. Conta-se que, depois do 5 de Outubro, quando republicanos empedernidos se preparavam para esfaquear a tela com o príncipe Luís Filipe exposta na Liga Naval, um popular se atravessou – Aqui ninguém toca, é um quadro do Malhoa!
O seu caminho estético não acompanhou o dos seus contemporâneos internacionais, dizem uns que por não ter podido estudar em Paris, para onde, por duas vezes, lhe foi negada uma bolsa. Mas a maioria da critica considera que pintava assim porque queria, numa época apaixonada por valores abstratos, ele foi, serenamente, um concreto valorizador*, diz dele José- Augusto França. Uma vez tentou aproximar-se dos Impressionistas com o Outono, mas parece que foi só para mostrar que o sabia fazer, não continuou. Não deixou, no entanto, de ser ele próprio um percursor nos anos 1880, integrando o Grupo do Leão, tornando mais agressivo o naturalismo, afastando-o do romantismo, mas sempre à sua maneira sem classificações, apesar de ser considerado o "pintor das gentes portuguesas" nunca lhe chamaram pintor "nacionalista", nenhuma ideologia se sobrepôs à criação de Malhoa: ele amava a sua terra e a sua gente, e pintava-a por isso mesmo*, conclui José- Augusto França.
Na década de 80 do SEC.XIX adquire uma casa em Figueiró dos Vinhos, virá, talvez, daí a sua ligação a Tomar e, de passagem, a obrigatoriedade de conhecer a Estação de Paialvo. Entendamos, portanto, que o grande Malhoa se apeou e subiu, durante mais de trinta anos, na nossa gare e calcorreou, igual número de vezes, de chars –à-bancs ou de carruagem a velhinha estrada, esburacada e desconfortável, Paialvo -Tomar seguindo ainda, depois, para o seu Casulo. (MFM)



8.10.1893
                                                                 

15.07.1928

Outono, José Malhoa 1918
*FRANÇA, José-Augusto, 1990, A Arte em Portugal no Século XIX, vol. II, pag.297, Lisboa, Bertrand Editora