Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

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2 de novembro de 2020

Mortos de Porto da Lage

Hoje, dia 2 de Novembro, que a liturgia católica dedica aos fiéis defuntos, lembro-vos as exéquias de um notável portodalagense da sua época. Figura esquecida no tempo, tal como o serão aquelas que o acompanharam na sua última viagem, quando os que ainda as recordam já cá não estiveram e tal como o seremos nós, um dia, quando o pó da lembrança desaparecer de vez com a partida dos nossos contemporâneos. Para todos, os que eu conheci e os outros que, num tempo passado qualquer, contracenaram as suas vidas no palco de Porto da Lage (as pedras são maiores que nós), vai a minha homenagem e o desejo de eterno descanso, onde quer que estejam (MFM)

Numa noite de Outono de há perto de cem anos, um lúgubre mas imponente cortejo deixava Tomar em direção a Porto da Lage. Tratava-se do grandioso acompanhamento fúnebre do cadáver encerrado num rico caixão daquele que em vida se chamara João dos Santos Faustino.

O falecido, comerciante benquisto e muito conhecido, que fora dotado de invulgares qualidades sendo, por assim dizer o procurador de toda a gente que precisava de serviços na Estação de Paialvo e a quem muita gente devia favores, teve funeral condizente com o estatuto e amizade que todos aqueles predicados tinham granjeado em vida.

Nesta conformidade, priores de várias freguesias, representantes de diversas forças vivas, desde a Confraria do Smo. Sacramento, passando pela Banda dos Carrascos até um dr. e um engenheiro naval, mais muitas senhoras e muitíssimos cavalheiros, o acompanharam, no dia seguinte, desde Porto da Lage até à sua última morada, em Cem Soldos.


O sr. João dos Santos Faustino seria o mesmo Faustino dos Santos (ou um filho seu?), que vinte anos antes, comprara uma casa a João Maria de Sousa, para que este nela instale uma taberna, permanecendo os antigos donos ainda com o pátio mas comprometendo-se a não o utilizar de forma a fazer concorrência ao negócio. Esta taberna, por transmissão direta entre herdeiros, seria aquela que as últimas gerações ainda conheceram como "a do José Jaime".(MFM)