Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

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2 de fevereiro de 2021

Memórias - A Irmã da Carolina





A Irmã da Carolina

Não tinha sido pacifica a minha entrada naquela escola rural, de meninas de bata branca onde se cantava o hino de Portugal, que eu só conhecia de o ver escrito, e se rezava uma oração ao início da manhã.

E a estranheza partira mais delas do que de mim. Eu era um animal estranho, vinha de Angola, dissera a professora, mas era branca, não morara numa cubata rodeada por leões e elefantes, costumava andar por lá vestida, ficavam elas a saber quando me perguntavam, mas não sei se acreditaram em mim. Eu não correspondia em nada ao imaginário daquelas crianças sobre África. Era uma fraude difícil de encaixar.

Mas lá se habituaram a mim, assim como eu a elas e ao frio. Acabámos, não sei se por nos entender, mas por ter relações pacificas. Havia várias classes na minha sala, mas na 4.ª seriamos umas oito, nove. 
Éramos todas boas alunas, mas a melhor, a mais brilhante, era a modesta Carolina. Vinha todos os dias de Além da Ribeira, onde a mãe era guarda de passagem de nível, com a irmãzinha pela mão, uma rapariguinha bem mais alta do que ela, de rabo de cavalo e olhar parado. As duas nas suas batas limpas e passadas a ferro. 
Quando entrávamos na sala, a Carolina ia sentar a irmã lá atrás na última carteira e ela aí ficava quieta e calada, a olhar para nada, até à hora do recreio. Aí, sentada no muro do pátio, comia o pão que a irmã lhe dava, sempre sem olhar ou falar com ninguém. E voltava a entrar, quando todas entravámos, e ocupava o seu lugar lá atrás.
Mulher adormecida-P.Picasso
1932



E durante todo o ano, todos os dias. 

Para além da surpresa dos primeiros dias também para mim aquela rotina se tornou banal. (1)






A Carolina sabia tudo: os pronomes, relativos, substantivos, conjunções, a, ante… dividia e classificava as orações, conjugava os verbos ser e haver, fazia contas, de dividir com quatro e cinco algarismos, problemas onde a água entrava a correr de uma torneira e saía a fugir de um cano e a gente tinha de descobrir aquela que lá ficava, sabia-se lá para quê. Conhecia os reis, as terras, continentes, ilhas que aquela gente há séculos tinha descoberto, por datas e circunstâncias. E ainda lhe sobrava tempo para saltar a corda e tomar conta da irmã. E com tanto empenho e inteligência a Carolina ficou por ali. Não prosseguiu os estudos, como todas as outras, aliás, porque era esse o seu lugar no arranjo daquelas vidas naqueles tempos.

E na injustiça daqueles amanhos, eu, a privilegiada, que não seria obrigada a trabalhar quando acabasse aquela escola, aos dez anos, no campo, em casa, em casas alheias, pagava o preço da minha superioridade, com a interdição de gozar da companhia delas.

Apenas uma, a Isabel, dos Vales, mais minha vizinha que as outras, pois em dias de lamaçal em que a estrada estava intransitável, atravessávamos a aldeia juntas e ela acompanhava-me até à pequena ponte (quando a ribeira ia cheia e tormentosa, quase a rasar a ponte, divertíamo-nos irresponsavelmente a fazer corridas em cima dela – um corredor de tábuas soltas, onde mal cabia um adulto e sem qualquer guarda lateral!), entrara algumas vezes do portão para dentro e fora-lhe permitido brincar comigo, com as minhas bonecas!

Mas ainda havia castas mais inferiores! Uma pequenita da minha sala, talvez da 1.ª classe, surgia todos os dias de manhã, lá do fundo da estrada onde não me parecia que morasse alguém e ficava parada em frente ao portão. Eu percebi e corri ao seu encontro. Arranjara companhia para ir para a escola! A alegria durou pouco. Era uma “maloia”, parecia que com aquela nem andar na rua se podia! A pobre foi mandada seguir logo na vez seguinte, com o pretexto que eu estava atrasada e iria depois.

Mas não foi nada que não se remediasse. Como era crédula a minha avó, imaginando que as suas palavras tinham algum efeito! Depois de a ver passar em frente ao portão, eu corria e alcançava-a. Íamos as duas a galgar os muros que bordejavam a estrada, sem dizer palavra, que tinha eu para conversar com uma miúda de seis anos? Bastava-nos a companhia uma da outra, que quebrava as nossas duas solidões vindas de ostracismos que nos eram alheios, e a mim, particularmente, saber que estava a desobedecer. Ai, como era bom! (MFM)

 (1)Hoje, com a idade e experiência, só encontro uma explicação para aquilo: o Papel, o indispensável Papel que, no caso dela, carecia ou estava a mais. Na rede fina em que, para o bem ou para o mal, o Estado, assim como a todos nós, apanhara a pobre demente desde que nascera, faltaria, ou sobraria, um registo escarrapachado numa folha azul que a condenava àquele calvário, contra tudo o que seria racional. Sem a oposição de nenhum ser que respirasse e usasse a cabeça! Tal a força do Papel! Por aqui se vê por que o nosso Hino é nosso, conhece-nos bem. Manda-nos marchar contra os canhões, não contra o Papel.