Natal em Portugal no sec. XVI
Natividade ou Adoração dos Pastores (séc. XVI- c. 1580).
Painel de azulejos atribuído a Marçal de Matos, Museu Nacional do Azulejo |
....Costumam [os lisboetas] mandar aos
amigos, na véspera de Natal, presentes de coisas doces, a que chamam consoada;
e são em tanta quantidade e qualidade que não dá para acreditar. E mais açúcar,
creio eu, se gasta em Lisboa naquele dia do que em muitas cidades de Itália
durante um ano. Jejuam em qualquer outro dia, com excepção deste, pois tal
noite é, por um hábito já antigo, e em qualquer mínima casa se encontrará uma
mesa cheia desta variedade de coisas doces, das quais se continuará a comer em
muitos lugares até à missa da meia-noite, a qual se diz observadamente em todas
as igrejas, tanto com os religiosos, como nas paróquias, à qual vai quase toda
a Lisboa, cada um onde lhe agrade, mas em particular às suas paróquias.
(Gianbattista Confalonieri , final sec.XVI*)
Eu, final do ano de 2017, também mando aos meus amigos, permitam que assim considere os que me acompanham neste blog, os votos sinceros para que consigam, neste Natal, todos os presentes de coisas doces a que aspiram! (MFM)
Retábulo da Natividade (séc. XVI), Museu Nacional Machado de Castro
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* Giovanni Battista
Confalonieri (1561-1648), sacerdote romano, viveu em Lisboa entre 1592 e 1596, como secretário de Fabio Biondi, delegado do Papa em Portugal. Desta experiência, bem como de
outra, vivida em 1594, quando viajou em pereginação com o núncio, a Santiago de
Compostela, escreveu duas memórias. Em di alcune cose notabili occorse nel
viaggio fatto da me Giovanni Battista Confalonieri, sacerdote romano, da Roma
in Portogallo, narra, com pormenor, o itinerário entre Lisboa e o santuário
galego, tecendo algumas observações sobre as localidades pelas quais passou,
entre as quais Tomar. Na obra Della Grandezza e Magnificenza della Città di
Lisbona, apresenta uma completa descrição da cidade de Lisboa, abordando
aspectos como as condições naturais, a religião, a justiça, as actividades
económicas, o poder político, a demografia e os costumes dos lisboetas. A
extinta Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses
editou pela primeira vez estas obras, traduzidas em português, a partir dos
manuscritos existentes no Vaticano, em 2002. A Torre do Tombo, depositária dos livros e revistas remanescentes,
editados por aquela Comissão, expõe-os e vende-os a preços muito convidativos,
pena que sejam cada vez menos. Lá descobri o volume " Por Terras de
Portugal no século XVI" que, além dos livrinhos de Confalonieri, contém um
outro, também sobre uma viagem a Portugal cerca de 1575, de Bartolomé de
Villalba y Estanã. Neles encontramos descrições deliciosas das visões daqueles
olhares estrangeiros, de há mais de quatro séculos, sobre nós, portugueses,
olhares esses que, ainda hoje, nalguns casos, se revelam certeiros a
apontar-nos defeitos e qualidades que mantivemos. Nas pesquisas que fiz na net
não encontrei comentários sobre esta obra, que não terá tido muita divulgação
junto do grande público, tendo ficado, penso eu, restrita aos meios académicos.
Mas está convertida na grafia actual, sendo, desta forma, de leitura acessível
e, repito, muito aprazível de ler. Recomendo. (MFM)
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