Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

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17 de dezembro de 2019

A Gente Fina Tomarense do Final de XIX



O Serão, Columbano Bordalo Pinheiro c.1880
                 

As duas últimas publicações, na companhia de Virginia de Castro e Almeida,  transportaram-nos ao  fim de século XIX. Aproveitando a maré, lembrei-me, recorrendo ainda ao resto das cartas da nossa amiga, de procurar, na imprensa e em fotos, mostras da forma como a burguesia de Tomar passava o seu tempo de lazer (ou seria o seu tempo?). De dia faziam-se pic-nics, passeava-se de barco no rio. À noite davam-se festas, saraus musicais, nos quais se tocava piano, bandolina e cantava, como já vimos acontecer em casa das senhoras Mouzinho, jogava-se, ria-se conversava-se ao luar.  Ia-se a bailes, ao teatro, organizavam-se récitas para financiar obras de caridade, às quais se tinha de assistir....Enfim, para alguns era uma estopada e um calor!
Pela imprensa temos notícia de um exemplo, o"esplêndido baile" realizado no Grémio de Ensino e Recreio Tomarense, que durou até às cinco da manhã, onde "muitas e formosas damas" formaram "pares alegres e gentis, cheios de vida e de alegria" com a "flor da mocidade máscula" local, dançando quadrilhas, lanceiros, valsas e polcas, enquanto trocavam " bastos e agradáveis tiroteios de amabilidades e ditos espirituosos". Entretanto, seriam servidos bons e delicados serviços de chá e doces, mais tarde sandwiches e vinho do porto, e depois doces e o dito Portwine e, por fim chocolate e [adivinhem!] doces (outra vez!, oh belos tempos sem preocupações saudáveis!). Mas nem tudo era comportadinho, havia também lugar a exibições mais ou menos brejeiras, como a do sr. Dr. João do Valle (que já conhecemos das relações na nossa heroína) que apareceu vestido de "donzela  um tanto durázia, de modos delambidos" e declamou um "monólogo bem apimentado, dito com todo o chiste " que arrancou muitas gargalhadas e muitas palmas "aos presentes.(MFM)



....Numa ilha que temos no meio do Nabão. (Cipriano Martins )


«Na quinta-feira fizemos um pic nic com as tomares numa ilha que temos no meio do Nabão, perto do Moinho Novo. Depois do Jantar entre os choupos, que esteve animadíssimo, fomos dar um belíssimo passaio de barco pelo rio. 


.......Depois do Jantar entre os choupos, que esteve animadissimo.....(1)




.......fomos dar um belíssimo passaio de barco pelo rio


Estava uma tarde encantadora. Depois viemos todos para a quinta onde passámos o resto do tempo até à meia noite, na varanda, ao luar, a jogarmos jogos, a rir e a conversar.»



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Serenata Thomarense


«Hoje vamos ao teatro a Tomar. Récita de amadores em beneficio do asilo de crianças cegas em que te tenho falado.
Entra o João do Valle e a menina Petrony e não sei quem mais; e um homenzinho muito janota, o Vizeu Pinheiro, que é escrivão e recita uma poesia que inventou de propósito. O teatro esta enfeitado com flores e leques e parece que as meninas Tomarzinhas vão decotadas e de manga curta etc. ...  Imagina a estopada e o calor! Eu mandei pedir ao João do Valle que nos arranjasse um camarote com o dos Charruadas. Se ao menos assim for não é mau de todo ...»

Nota: As tomares ou meninas tomarzinhas referem-se às filhas do conde de Tomar.

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Fevereiro 1896


"Excursão do Grupo Dramático de Silva Magalhães a Cernache".Este grupo, que adivinho republicano, também actuaria
 nas récitas, destinadas a obras de caridade, para a assistência acima?

Fontes:
(1) Imagem do quadro "Hip Hip Hurrah, 1888", de Peter Severin Kroyer (1851-1909).
- Fotografias Fundo Silva Magalhães.
- Recorte da imprenda de Memória Digital de Tomar.

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