Tínhamos
um garrano fêmea que servira para meu irmão se transportar, todos os dias, a
Tomar, onde frequentava uma escola comercial. Quando esta utilização o tornou
desnecessário, o animal passou a ser usado, unicamente, para puxar ao engenho
que tirava água do poço para regar a horta ou encher um tanque grande onde a
roupa era lavada semanalmente. Para qualquer outra utilidade, era impróprio,
era esquivo.

Também fui uma vez a Ferreira do Zêzere. Foi a maior distância que eu percorri em um só dia, no total de cerca de 50km ida e vinda. Iniciei a viagem de manhã cedo e cheguei horas depois. Para quê esta ida a Ferreira do Zêzere? O governo nesse ano publicou um edital a intimar os possuidores de animais cavalares e muares, que deviam apresentar-se com eles, marcando a data e período do dia, na vila de Ferreira do Zêzere. A meu pai era impossível ir. Não tinha meio de transporte para se deslocar; o animal era impróprio para ser atrelado a qualquer veículo. Solução: “amanhã, domingo, levas a égua a Ferreira do Zêzere, à inspecção. Está lá o tio Manel Augusto! Passas a Tomar! Depois de Tomar passas ao Pintado” estava a indicar-me o caminho, “depois do Pintado tens uma estrada à direita que diz: Ferreira do Zêzere. Segues por aí.”.
Ordem dada sem mais qualquer recomendação.
Nesse domingo de Outubro ou Novembro de 1941, levantei-me mais cedo que o habitual, vesti o fato domingueiro, casaco e calças compridas provenientes de algum fato de adulto já usado, aparelho a égua com o albardão e a cabeçada e aí vou eu a galope ou a passo acelerado a caminho de Ferreira do Zêzere, seguindo as simples indicações de meu pai.
Terei chegado pela uma hora da tarde. Encontrei, no recinto da concentração, o carroceiro do meu tio com a carroça e as bestas que ele havia conduzido. Algum tempo depois aparece meu tio, que meu pai me recomendara, a ordenar o regresso a casa. Os nossos animais não foram mobilizados! No regresso, a caminhada foi vagarosa, a passo lento.
O meu convívio com este animal durante cerca de quatro anos fez nascer em mim uma atracção natural por esta espécie, e que ainda perdura. Acontecia algumas vezes, presenciar a passagem de grupos de cavalaria do exército em digressão pelos caminhos dos pinhais circunvizinhos da povoação. Para mim eram os melhores cavalos do mundo!... (IMT)
Sem comentários:
Enviar um comentário