Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

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9 de maio de 2013

Histórias de Porto da Lage

                              

 

                                   O Grémio de Porto da Lage

 


Ao recordar este ingénuo e provinciano episódio [post anterior ], abre-se-me do arquivo da minha memória a acção cultural, social e recreativa que o Grémio de Porto da Lage exerceu durante os primeiros anos da sua existência.
No campo da cultura, foram levados à cena algumas peças de teatro representadas por jovens raparigas e rapazes naturais do Lugar. No campo da música, nasceu uma escola para o ensino das primeiras notas musicais. Tinha como professor o sargento-músico do R.I. 15, Diogo Vasconcelos, natural da povoação do Paço da Comenda.

Cada um dos instruendos adquiriu individualmente o seu instrumento musical. Eram violinos, guitarras-violas e bandolins. As aulas eram ministradas semanalmente, aos Sábados à noite ou aos Domingos, porque era o tempo que havia disponível. Inicialmente houve grande entusiasmo mas foi diminuindo perante as dificuldades. O solfejo era mais do que maçador e incompreensível para quem não teve a dita de um Viana da Mota ou um Beethoven mais modesto. A desistência foi total. Cada candidato recolheu-se à sua inaptidão musical, guardando cada um o seu instrumento de cordas até que desapareceram.

No campo da acção social, o grémio com a sua gente de jovens raparigas, meritou ao confeccionar roupas de agasalho para as crianças carenciadas dos Lugares vizinhos, quando a época de Natal. 
No campo recreativo a acção do Grémio foi mais abrangente. Era esse o seu propósito inicial quando da sua fundação.

Pelo Carnaval organizavam-se bailes e marchinhas animados por pequenos conjuntos musicais; na Primavera e princípio do Verão reuniam-se os jovens de todas as idades e alguns adultos coniventes, em pic-nics pelos cimos dos montes; aos Domingos ouviam-se relatos de futebol transmitidos pela antiga Emissora Nacional através de um receptor TSF alimentado por acumulador; em jogos de salão havia o ping-pong, o jogo das damas, do dominó e das cartas. Para regalo do espírito havia uma moderna grafonola que debitava uns sons com alguns dBles, através de uma campânula, que vinha das profundidades de um disco que rodava a 78 r.p.m, emitidos por uma senhora ou cavalheiro que lá haviam caído.

Ainda do Grémio dos anos 30 de mil e novecentos é destacável o pano de boca do palco. Era uma pintura da ponte de cimento, abarcando todo o leito da ribeira, as duas margens, a estrada da Beselga com construções já desaparecidas. Tinha como fundo o açude em plena Primavera, com água a cair em catadupa sobre o lajedo com profundas cavidades (Ilídio Mota Teixeira).






Fotografia de Luís Sousa, cedida por Óscar Mota

Quinta-Feira da Ascensão


                                                                  Hoje é Dia da Espiga



Com a cortesia de   Água com linhas
                                                     
                                                                   
                                                               


Ascensão de Cristo, Perugino, 1510


8 de maio de 2013

Histórias de Porto da Lage



A ÚLTIMA CORRIDA...DE BURROS EM...PORTO DA LAGE


Não foi a última nem a primeira. Não houve mais nenhuma porque, no encerramento, houve quem se sentisse despeitado na sua condição de adulto, industrial e chefe de família. Outros sentiram-se enganados e reagiram com atitudes insultuosas. No entanto, aqui vai o relato do acontecimento datado do Verão do ano de 1934 ou 1935. Para quem irá lê-lo, não terá qualquer importância. O objectivo é retratar um pouco a maneira de estar das gentes de Porto da Lage, desses anos já tão afastados.

O Centro Cultural, Social e Recreativo de Porto da Lage ou, mais simplesmente, Grémio de Porto da Lage, foi inaugurado em 1933; para festejar a efeméride a direcção, encabeçada por um Dinâmico e prestigiado portalegence (do que eles se haviam de lembrar!) programou e enviou arautos – os cartazes eram dispendiosos – pelas povoações vizinhas anunciando uma corrida de burros tendo como prémio uma albarda de luxo confeccionada por um famoso albardeiro.















Local aproximado da meta



 

















À hora do dia marcado de um Domingo, compareceram os poucos concorrentes dispostos a conquistar o valioso prémio. Seriam rapazes já bem crescidos de algures. O local da concentração das montadas e condutores era na estrada, de fronte do portão da padaria, assim como a meta de partida e chegada.

Como local reservado para um pequeno número de espectadores, havia um pequeno patamar de lajes da frente da casa que ladeava o “burricódromo”. 


Alinhados os “puro-sangues”, aos quais se juntou à última da hora o burro da padaria, único concorrente da terra, foi dado de viva voz o início da corrida. Lá partiram muito contrariados na direcção da ponte de cimento onde retornavam à meta.
O primeiro burro a chegar foi o do padeiro, como já se esperava. Tinha a morada oficial mesmo ao lado da meta...


Terminada a corrida, seguia-se a entrega do troféu. Para isso, o local mais apropriado era o salão do Grémio, ali muito perto. Para lá se dirigiram os organizadores, os participantes e o escasso público. Chegados que estão, o presidente da assembleia sobe ao patamar do palco, confirma o vencedor e exibe o prémio: uma minúscula miniatura de uma albarda! Os participantes não gostaram da brincadeira e o vencedor muito menos. Ouviram-se “raios e coriscos” e juramentos eternos.

Muitos anos depois, a miniatura da albarda conserva-se dentro dum armário-estante, num pequeno compartimento ao lado do palco. (Ilidio Mota Teixeira)






7 de maio de 2013

Recordações da Nossa Aldeia


                                    (continuação)
                                                                                                   III
                                                                                                 Hoje

Hoje Porto da Lage é uma sombra do que foi. Poucos descendentes dos pioneiros aqui ficaram radicados. Os bisnetos há muito que saíram para as cidades do Porto, Lisboa, Coimbra, Setúbal, Leiria, Lousã, África e até E.U.A. Entre eles, há médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, professores, economistas. Só um foi para o Seminário mas esteve lá pouco tempo, faleceu nos EUA, lá deixou quatro filhos e não sei quantos netos.

Só uma nota que não quero esquecer. De todas as famílias que por aqui passaram para trabalhar na estação de comboios, ficaram por cá três descendentes de um sr. Sousa, agulheiro, a filha do sr. Vital, empregado menor e o filho de um sr. Santos, factor ou chefe, que era dos Soudos. De resto todos regressaram às suas origens. Já nos tempos mais recentes quando ainda havia guardas de cancelas ficaram aqui radicadas mais três famílias: Baião, Arlindo e Jorge. O primeiro veio do Alentejo, o outro casal de Fungalvaz e o terceiro casal ele do Casal da Fonte e ela de Fungalvaz. Ainda há outra família que veio da Régua com três filhos e por cá quiseram ficar.

Desde 1864 até 2013 muitas décadas se passaram, muita água passou debaixo da ponte. À data mora aqui uma senhora de 82 anos com a irmã de 76 anos, bem como a filha da primeira. São descendentes de Sousa Rosa. Dois irmãos (casados e com filhos) descendentes do Sousa Rosa que foi à guerra em França.  Dos Sousa Rosa a viver em Porto da Lage há um jovem rapaz, mas o pai trocou-lhe o apelido, em vez de continuar o nome do antepassado. Um outro jovem varão, também descendente, já nem usará o Sousa Rosa da avó materna.

Na cidade do Porto há os descendentes de um bisneto do pioneiro Sousa Rosa e o último ocupa o 7.º lugar na ordem das gerações.

Há bisnetos de Motas que aqui têm casas e vêm cá regularmente: uma neta de Manuel Augusto Mota, dois netos de João Mota e duas netas de António Mota.




Eu, que também sou bisneta do pioneiro Sousa Rosa e neta de Francisco Mota, das Sobreiras, cá moro, até quando não sei. (Dulcinda Mota Teixeira)
                                                                          FIM

6 de maio de 2013

Recordações da Nossa Aldeia


(continuação)




A destinatária não gostou da poesia, conseguiu saber quem eram os autores, pegou na carta e foi fazer queixa à policia. Não sei se à primeira a moça sabia quem eles eram todos. Os sete “mosqueteiros” usaram o lema “um por todos e todos por um”. Quando foram notificados lá seguiram todos para Tomar, cada um na sua bicicleta. A queixosa, a mãe e mais uma irmã, também foram chamadas. Quando o comandante da esquadra resolveu castigar os “réus” aplicando multas, a cada um, de duzentos escudos para a sopa dos pobres, perguntou à queixosa se achava bem o castigo, ao que ela respondeu:
- Acho pouco!


Durante anos a pobre da rapariga era só conhecida por “acho pouco”. Há pouco tempo uma pessoa que veio morar para Porto da Lage uns três anos depois desta história, perguntou-me porque apelidaram a moça com tal designação.
Na opinião do comandante da esquadra as quadras ou versos mais maldosas eram da autoria do rapaz mais novo. Isto foi talvez há sessenta e cinco anos, já quase todos já não estão entre nós. O mais velho teria agora oitenta e sete anos.


Por aqui se teriam reencontrado os compadres
 Os divertimentos dos jovens eram diferentes dos seniores. Havia dois compadres, cunhados, primos e vizinhos que também marcaram pontos. Um era Manuel Augusto Mota e outro António Sousa Rosa. Tanto um como outro gostavam de beber uns copitos. Todos os sábados iam a Tomar numa charrete puxada por um cavalito: iam ao mercado. O Manuel Augusto Mota comprava 250 g de carne de vaca, o outro comprava mais qualquer coisa para oferecer a um cunhado, era uma devoção. Em determinado sábado lá vinham os dois de regresso a subir a ladeira de Tomar, mas parece que já vinham aconchegados. Chegaram ao topo da ladeira – a primeira paragem no Chico Elias – taberna. O Manuel Augusto Mota foi tratar de refrescar a boca. Quando chegou cá fora não viu a charrete nem o cavalo nem tão pouco o compadre. Resolveu meter-se a caminho a pé sete quilómetros. Quando chegou a casa já vinha lúcido e o compadre estava sentado no portal da casa dele à espera. Quem foi o culpado do incidente foi o cavalo que não percebeu que faltava um passageiro. Ninguém lhe fez sinal para esperar. O António Sousa Rosa tinha perdido o chapéu, teve sorte porque o Manuel Augusto Mota o encontrou na estrada e apanhou-o para o entregar ao ingrato do compadre.

(continua)

5 de maio de 2013

Recordações da Nossa Aldeia


(continuação)

Quem se lembrará do “Pena Verde”? Penso que o Henrique João Mota não se esqueceu desse brinquedo que ele conduzia com quinze anos. Esse carrito verde pertencia ao empregado da União Fabril, mas por razões desagradáveis deixou de lhe pertencer. Quem ficou com o dito “Pena Verde” foi o fiador que era tio do Henrique João. Como o fiador não tinha garagem o brinquedo foi para casa do irmão. Lembra-me de uma ocasião o “Pena Verde” passar à minha casa conduzido pelo Henrique João e levava um tal senhor Quintas idoso reformado da CP, penso que o irmão do condutor, o Augustito ou outro dos mais novos também ia no carro a caminho do Paço da Comenda. Este Henrique João era o menino da terra assim como o irmão Augustito. Eram os dois primeiros filhos do médico.
Os rapazes da época já eram devotos de jogar à bola, mas não tinham espaço livre onde pudessem chutar com toda a força. Juntavam-se numa estrada sem saída que servia a estação dos comboios, a farmácia e um estabelecimento de comércio geral.
Um dia à hora errada eu precisei de lá passar, apanhei com uma bolada nas costas que até vi estrelas. Mas nenhum jogador teve a educação de pedir desculpa. Eu é que não devia passar porque os meninos estavam a jogar.
Nesse mesmo local uns dez anos antes dois garotos, o Henrique António e o Zeca Brás cada um no seu triciclo faziam gincanas em círculos. Eram os únicos meninos que tinham a felicidade de possuir um triciclo.
                                          

Outro divertimento dos rapazes era mandar cartas pelo Carnaval. A vítima desta vez foi uma rapariga magra, alta, de 22 anos, de ar empertigado, muito senhora do seu nariz. Ora uma noite pelo Carnaval os rapazes estavam em amena cavaqueira junto ao espaço da bola, quando apareceu a esvoaçar uma borboleta escura e maior do que o normal.
 
O grupo compunha-se de sete rapazes com várias idades o mais novo talvez com quinze anos. Cada um deu uma opinião sobre o destino a dar ao animalzinho nocturno. Entre todos resolveram meter a borboleta numa carta e escrever uma dedicatória em versos e enviá-la à tal rapariga.
 
(continua)



 

4 de maio de 2013

Recordações da Nossa aldeia

(continuação)

A represa armazenou uns bons metros cúbicos de água. Uma boa piscina onde alguém veio tomar banho. Havia um senhor da terra, o Joaquim Tomás, um bom metalúrgico, com perto de quarenta anos que tinha construído um barquito de madeira para experiência de barco com motor. Levou o barquito para a represa. Foi uma brincadeira para os mais novos.
        

                                                 

















Uma bela noite quente houve malandrice. Alguém que estava por ali a observar quem andava a passear de barco ofereceu uma cerveja a quem conseguisse virar o barco para que o passageiro vestido de fato branco caísse na água. Dito e feito. Logo apareceu um voluntário que mergulhou e passou debaixo do barco.          
Lá foi o homem de fato branco para dentro de água. Até houve uma grande salva de palmas da assistência.                                       

Claro que o nosso amigo do fato branco não gostou nada do banho e abandonou o local. Não sei quem o levou a casa. Já lá vão 62 anos. A pessoa que ofereceu a cerveja, a que foi virar o barco e o do fato branco já todos três faleceram há muito. O autor da ideia (o João Pedro) era muito brincalhão. Há quem descreva esta história com todos os pormenores.


A mocidade desse tempo, os que estão vivos, já ronda os oitenta anos e mais. Os seus netos não imaginam o que eram os divertimentos numa aldeia. Tínhamos que os inventar. Nem uma bicicleta as raparigas possuíam. A nossa década de 1950 deixou marcas que ainda são recordadas com saudade!



(continua)



Recordações da Nossa Aldeia


                                                            (continuação)



O tio João Mota anota assim, no seu registo diário a partida
dos "sobrinhos estudantes" em 4.11.1956.
Neste Verão organizaram uma récita e um passeio ao Agroal. Quando regressámos desse passeio o Dr. Henrique Mota viu-nos chegar, foi ter connosco e abordou um assunto interessante: organizarmos um arraial popular na margem da ribeira junto ao açude. Ouvimos mas ninguém fez caso. Passou o Outono, o Inverno, entrou a Primavera e quando nos aproximámos de Junho o Dr. Henrique Mota voltou ao assunto do arraial popular.




 O grupo mais activo uniu-se e toca a trabalhar. Levantou-se uma muralha de terra para reter a água que ainda corria da queda do açude; fizemos uma pista com terra barrenta amassada com palha; ficou como se fosse uma eira para debulha de cereais.




A autora destas linhas a "amassar" a terra para fazer a pista de dança. Curiosa maneira de trabalhar, de gravata e calça afiambrada, o companheiro, lá atrás, até parece queixar-se de pingos nas calças
  
Ora estava feito o espaço para quem quisesse dançar.
Tivemos bailaricos aos fins-de-semana, Santo António, São João e São Pedro, mais uns domingos de Julho. Havia barraquinhas para comer e beber. De Randufas, Torres Novas, vinha o Francisco Honório ainda rapaz novo tocar com o seu acordéon as músicas da época que nós pedíamos. Este Francisco Honório era pai dos elementos do actual popular conjunto FH5 de Tomar.
Eram divertimentos simples e modestos mas para a época era uma alegria.

(continua)

3 de maio de 2013

Recordações da Nossa Aldeia

                                                      (continuação)
                                                                          II
                                                                 ANOS CINQUENTA





A nossa aldeia era pequena mas muito beneficiada com o comboio, servida por duas empresas de camionagem “Os Claras” e “Cernache” todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados. Penso que durante os anos críticos da guerra de 1939 a 1945 não havia transportes todos os dias. Quase todos os comboios paravam, só não paravam os rápidos e o internacional. Poucos automóveis por aqui circulavam por isso os transportes públicos, as bicicletas e os fiéis burricos tinham muita procura.


Havia em Porto da Lage, médico, farmácia, mercearias, comércio geral, tabernas, costureiras, escola primária com duas professoras, uma fábrica de álcool onde trabalhavam vários operários, uma moagem a motor, outra mais pequena movida a água por uma vala (no principio eram duas que trabalhavam com a força da água). Havia talhos, padaria, sapateiro, dois barbeiros. Na época das matanças de porco havia depósito de sal. Tinhamos dois lagares de azeite públicos e três particulares e uma oficina de bicicletas onde se ia remendar a câmara-de-ar em vez de comprar uma nova. Todos os dias o comboio trazia o “Diário de Notícias” e “O Século”; a ambulância dos C.T.T. deixava o correio do Norte e Sul nos comboios da noite e outras tantas malas nos comboios de dia.
A nossa terra só em 1960 teve o privilégio de ver chegar a electricidade. A água canalizada chegou em 1950, o telefone público em 1954, a estrada alcatroada entre Tomar e Torres Novas talvez em 1956.



A água canalizada chegou a Porto da Lage no Verão de 1950. Nessa época o Dr. Henrique Mota era vereador na Câmara de Tomar, penso que seria Presidente o sr. Capitão Oliveira, mais tarde General Oliveira.
A água veio de uma propriedade situada na margem esquerda do ribeiro que nasce talvez no lugar da Longra, banha Porto Mendo, vem correndo chegando então à propriedade que em tempos remotos pertenceu ao proprietário Manuel de Sousa Rosa que foi dos primeiros habitantes de Porto da Lage. Havia nessa propriedade, chamada Azenha, uma mina cavada na rocha com a entrada em arco, da altura de uma pessoa de estrutura regular. Dessa mina saía sempre água, fosse Inverno ou pleno Verão. A água da mina vinha para um enorme tanque rectangular e daí iria alimentar a azenha e ainda regar as terras de cultivo. A propriedade foi herdada por uma filha de Manuel de Sousa Rosa de nome Soledade que, por sua vez teve os filhos António, Lúcia e Ana.  Quando o vereador Henrique Mota trouxe a água até Porto da Lage fez um agradecimento aos proprietários da mina mandando colocar no fontenário uma lápide com o nome daqueles: António Rosa Mota, Manuel Augusto Mota e Luís Pereira Teixeira, isto é, respectivamente António e os maridos de Lúcia e Ana.

Talvez esta mina da Azenha tivesse sido aberta no tempo dos frades do Convento de Cristo, quando o Infante D. Henrique viveu em Tomar e era dono dos grandes olivais à volta de Tomar. Hoje ainda há muitas oliveiras dessa época.
No Verão de 1950, férias grandes para as escolas, juntavam-se na terra natal alguns jovens. Penso que ainda consigo nomeá-los:
Armindo Cardoso, Ilídio Teixeira, Luís Dupont (vindo de Moçambique) Henrique António Narciso, Virgílio Cardoso, José Braz, José Vital, Henrique João Mota, Mário Reis, Artur Simões, Mário Nunes, Luis Filipe Sousa. Havia uns outros mais novos e ainda o Manuel Cordeiro que nunca se juntava.
As raparigas eram mais: Arminda, Maria do Rosário e Dulcinda Teixeira, três irmãs; Isaura e Georgina Silveira, duas irmãs; Ana e Mercedes Cordeiro, irmãs; Isaura e Luciana Rosa, irmãs; Celeste, Gracinda e Benvinda Rodrigues, três irmãs; Angelina e Deolinda Sousa, irmãs; Maria Augusta Simões, Maria Estela V. Taxa, Maria Filomena Narciso; Ilda e Maria Celeste Sousa, irmãs; Maria de Lurdes Nunes, Maria do Rosário Vasconcelos (casou em Outubro), ainda a Marília Reis.


Dos rapazes já faleceram seis, das raparigas também seis.
(continua)

2 de maio de 2013

Recordações da Nossa Aldeia

                                                        (continuação)
As Mudanças e o Progresso

A chegada do comboio atraiu comércio e movimento. Veio a Companhia União Fabril que se manteve até aos anos oitenta do século vinte; com a criação duma fábrica de álcool vieram guarda-fiscais; vieram famílias para o caminho de ferro.
Desde os primeiros anos dos comboios a Companhia União Fabril aqui instalou um armazém para vender os produtos que eram necessários aos agricultores.
 A fábrica de papel do Prado também aqui tinha armazém.


Oh saudosa ribeira das noites calmas e de luar de Verão quando as queridas rãs resolviam dar alegria à população. Em tempos recuados havia um morador à beira da ribeira que se sentia incomodado com o barulho dos animais. Quando a orquestra aquática iniciava os primeiros acordes o tal senhor agradecia com um ataque de pedras. Isto talvez em 1930 e tal.

A escola primária foi construída entre 1925 e 1928. Era uma sala única e a professora veio de Lisboa. Passados poucos anos veio para esta área uma outra senhora de Lisboa também para leccionar. Na época veio a separação dos meninos das meninas, e por volta de 1935 a escola primária já tinha duas modestas salas.Quem construiu as paredes das salas de aula não contou com as inundações da ribeira da Beselga e do ribeiro. Transbordavam, a água atravessava as estradas e como o espaço para o recreio estava mais fundo que a estrada não havia recreio nem aulas para a população escolar. Talvez em 1940 a água era tanta que entrou dentro das salas. Lembro-me que passei na estrada a salvo numa carroça, e vi pelas janelas cadeiritas das alunas andarem a boiar quase ao nível das carteiras.
Quando havia cheias a garotada ia para cima da ponte mandar barquinhos de papel feitos com folhas de cadernos.
Este edifício da escola resistiu até aos anos 70. Em 1983 foram inauguradas as novas instalações.

Também em 1933 foi criado um local de lazer e encontro de famílias “O Grémio”. Havia bailes só por convites. Realizavam-se récitas e ainda chegaram a passar filmes.



Edificio em ruinas onde funcionou o Grémio

No mesmo ano de 1933 chegou um senhor vindo de Moçambique com algum dinheiro e abriu uma farmácia. Era o sr. Manuel Oliveira, a farmácia era a “Africana”. Aqui se reuniam algumas personagens em amenas cavaqueiras de intelectuais. Jogavam às damas, recebiam os jornais que vinham de Lisboa. Como não havia electricidade não se ouvia rádio nem futebol.


Quando o sr. Oliveira abriu a farmácia trouxe para atender o público um sr. Monteiro, ainda me lembro dele, alto, bigode branco, quando ia para casa à noite levava uma lanterna pequenina a petróleo. A esposa faleceu, cá ficou com a filha que se chamava Judite.
Por morte do sr. Oliveira, os herdeiros venderam a farmácia; a nova proprietária aguentou-se vinte anos mas procurou novos horizontes e mudou para Tomar. Hoje temos um posto de farmácia móvel.


O filho mais novo de Augusto Mota formou-se em medicina em 1932 ou 1933. Montou o consultório na velha residência dos pais. Aos domingos é que vinham a maior parte dos doentes. Vinham doutras aldeias a pé ou de burro. Se houvesse uma boa burricada à porta do consultório … o médico tinha mais clientela …

A estrada que atravessa a aldeia, até 1942 no Inverno não se podia passar a pé com tanta lama. A Câmara alargou a rua, levantou um muro na margem direita da ribeira mas mesmo assim a água  da cheia entrava pela aldeia.
Na Primavera com o tempo mais ameno a ribeira era povoada de patos reais e outras raças, brancos e malhados. Estes patos pertenciam a vários moradores. Todos desciam à água conforme a hora que as donas os soltavam. Quando se aproximava a noitinha subiam todos a rampa para a estrada e cada grupo seguia direitinho para casa dos respectivos donos, mas … nunca iam calados. Eram uns seis ou sete grupos.

Quando era o tempo da caça o espectáculo também era engraçado. O s caçadores reuniam os cães chamando-os com o apito; os animais estavam nervosos, ansiosos para irem para o campo, era uma algazarra de latidos. O pior era quando um ou dois ficavam fechados e viam os companheiros partirem.

Falei nas famílias que vieram chegando para a estação dos comboios e os guarda-fiscais para a fábrica do álcool.











Foi esta rua à esquerda que a panela "sobrevoou"vinda de uma
das janelas da casa em frente, aterrando no quintal da casa de tarja
amarela, à esquerda.

Havia um guarda-fiscal que veio para aqui talvez em 1936, era casado mas não tinha filhos. O seu apelido era Belmonte, tocava concertina e era muito temperamental. Contavam os adultos da época que um dia comprou um cabrito e ordenou à esposa que cozinhasse cabrito para o almoço. Por razão desconhecida a senhora preferiu cozinhar bacalhau. Quando chegou a hora de almoço não havia cabrito mas sim bacalhau. Em vez de almoço, a panela de bacalhau e batatas voou pela janela do 1.º andar e foi aterrar no quintal da frente. Não se perdeu nada, os cães que por ali abundavam, almoçaram.
Este casal manteve-se por cá ainda alguns anos. Mais tarde, 1941, quando do grande ciclone, ela atreveu-se a sair de casa para ir comprar leite ao produtor.

Muitas destas famílias deixaram gratas recordações.

A fábrica de álcool (a gerência) por volta de 1942 resolveu encher umas dependências de porcos do Alentejo, ruivos ou pretos. Eram mais de cem. Quando era a hora dos tratadores irem abrir as vedações era um espectáculo vê-los saltar uns por cima dos outros. Mas o pior era o cheiro nauseabundo que andava pelos ares. Não havia ETAR nem nada para preservar as águas dos poços e da ribeira. Os excrementos eram armazenados a campo aberto, ali se reproduziam biliões de moscas. Os animais ou viaturas puxadas a bois passavam por ali e as mosquinhas apanhavam boleia para o centro da aldeia. Os moradores tiveram de proteger as portas e janelas com redes.

Já lá vão setenta anos. Hoje o espaço dos porcos é um lindo jardim particular, pouca gente se lembra do que aquilo foi. Quem lá mora não morava cá nessa época. O Mário Santos e Cacilda.
(continua)

1 de maio de 2013

Recordações da Nossa Aldeia

                                                       (continuação)

Os Faustino ou A Taberna Assombrada


Há ainda em Porto da Lage a velha habitação de um dos primeiros habitantes que se chamava João Faustino. Não sei de onde veio, era casado com uma senhora filha de um casal Margarida e Narciso. A tia Margarida faleceu em 1951, constava no seu registo que tinha nascido em 1850, contava ela que, com dez anos andara a trabalhar no transporte de cestos de pedra britada para as obras da linha do Norte.

Na casa do João Faustino diz-se que havia, em tempos, uma estalagem com muda de cavalos para puxar as diligências. Por baixo dessa casa passa uma vala que vinha do açude e ia alimentar a moagem que havia à beira da ribeira propriedade de Manuel Mendes Godinho. Essa vala não tem água porque foi entupida para unir a propriedade onde ela passava. A parte que passa por baixa das habitações serve de esgotos desde há muitas décadas, presentemente na época seca as consequências não são nada agradáveis. No subsolo viverão exércitos de ratos e outros animais desagradáveis. Ora na casa do sr. Faustino ainda funcionou uma taberna durante décadas até aos finais de setenta. Por volta de 1930 lá habitava a velha proprietária com uma filha solteira e a professora da terra, que tinha sido casada com o filho dos donos da casa, entretanto falecido; no rés-do-chão morava um barbeiro vindo do Outeiro e sua mulher com dois filhos. Quando o barbeiro morreu, o genro da proprietária (a filha entretanto tinha casado) tomou conta da taberna e fez tudo para que a viúva daquele deixasse a casa. Não conseguiu. Talvez em 1944 começou a correr a fama que a casa estava assombrada. Muita gente ia à taberna para ouvir o que a tal alma do outro mundo dizia. Isto durou mais de um ano. Como a senhora viúva do barbeiro nunca saiu, a alma do outro mundo foi-se embora. Depois, mais tarde, dizia-se que era alguém que se metia na tal vala e, com voz assustadora respondia às perguntas que alguém quisesse fazer. A senhora só saiu em 1959 ou 1960 quando resolveu ir viver para junto da filha em Luanda. 

Manuel Mendes Godinho Júnior


Nos primeiros anos do século vinte instalou-se aqui o filho do grande industrial Mendes Godinho, casado com uma senhora natural de Rio de Couros, concelho de Ourém. Tinha moagem movida a água.
Este senhor Godinho era um elegante da época, deslocava-se a cavalo, mandou plantar um belo jardim com uma cascata, era um luxo no pobre meio aldeão. Também tinha um papagaio; diziam que o animalzinho aprendeu a chamar o dono pela alcunha, coisa que não agradava ao sr. Godinho. Um dia o dono não estava bem-disposto e zangou-se com o papagaio. O pobre do animal conseguiu fugir e voou ares fora. Foi poisar na povoação mais perto, os Vales. Alguém conseguiu apanhá-lo e prendeu-o debaixo de um cesto. O sr. Godinho já andava com saudades e remorsos de ter tratado mal o bichinho que lhe tinha custado umas notas, quando alguém lhe participou que o papagaio estava em casa de alguém algures nos Vales. O bom do sr. Godinho lá se dirigiu mas quando o papagaio ouviu a voz do dono, respondeu lá debaixo do cesto: “Oh Piroca”. Esta alcunha ficou vitalícia e não sei se se estendeu aos seus descendentes.
A esposa deste sr. Godinho tinha um irmão, o Julinho. Um homem que ficou sempre criança e que a irmã acolheu cuidando sempre dele.
Nos anos vinte havia na aldeia três ou quatro estudantes em Coimbra: Henrique Mota, Mendes Godinho filho (sobrinho do Julinho), Carlos Fagulho de Paialvo e mais um colega de Henrique Mota.
Ora como o Julinho também queria ter namorada como os outros rapazes da época, o grupo de académicos organizou uma malandrice. Prepararam o Julinho para receber uma noiva que havia de chegar num comboio que vinha de Coimbra.
No dia marcado lá foi o Julinho esperar a noiva ao comboio. A “noiva” era um dos estudantes vestido de mulher elegante – chapéu, raposa, luvas e saltos-altos. O Julinho recebeu-a muito bem e acompanhou-a outra vez ao comboio quando ela lhe disse que tinha de regressar a Coimbra, mas com a promessa de voltar para o levar com ela.
A dita noiva esperou pelo próximo comboio entrou do lado da gare e saiu do lado oposto, tirou as vestes femininas e apareceu com as suas roupas masculinas.
Coitadinho do Julinho, viveu até ao fim dos seus dias à espera da “Dona Chica”, sua noiva, que havia de vir no rápido para o levar com ela.
Lembro-me muito bem, nos anos quarenta, aos domingos, lá ia o Julinho mais a irmã D. Maria do Carmo a caminho de Cem Soldos. Várias pessoas frequentavam os serviços religiosos, andávamos quase três quilómetros a pé porque pouca gente tinha transportes públicos ou próprios. A D. Maria do Carmo levava as flores para o jazigo de família e o Julinho transportava o regador para encher de água em casa de um morador de Cem Soldos. Depois da celebração da missa lá iam os dois ao cemitério colocar as flores. Foi este o ritual durante alguns anos.
A D. Maria do Carmo não gostava muito de gastar dinheiro na alimentação, o marido, o tal sr. Godinho, com a entrada do Estado Novo em 1933, abandonou tudo e foi para Angola deixando o património muito em baixo. Ora a senhora via-se numa situação económica difícil. Dizia-se que com sacrifícios e orientação conseguiu recuperar. Durante os anos que duraram os sacrifícios a senhora cozia a hortaliça, preparava o prato para a refeição do Julinho, supostamente bacalhau, e dizia-lhe que o bacalhau estava debaixo dos grelos


    Também para aqui veio um casal natural de Pousos e Pé de Cão, perto da Casa dos Vargos, talvez aí por volta de 1926, que teve a ideia brilhante de montar uma indústria de panificação. Alugaram casa para morar ao fundo da povoação. Como quem vai para Tomar, à curva do Raúl, havia e ainda há uma velha casa onde construíram um forno  simples onde coziam pão para venda. Mais tarde meia dúzia de anos, compraram terreno no meio da povoação e construíram uma boa habitação e o forno e local de venda. Habitação no 1.º andar e a padaria no rés-do –chão. Era um espaço com dois edifícios de 1.º andar e um pátio a meio. No 2.º edifício eram estábulos e armazém de lenha. Muito brinquei neste pátio com a Maria Augusta filha do casal Jorge e Júlia Simões. Hoje a padaria já mudou de donos e foi funcionar para um espaço maior no Paço da Comenda.                                                                  (continua)

30 de abril de 2013

Recordações da Nossa Aldeia

 

Dulcinda Mota Teixeira é uma figura em qualquer parte do mundo. Porto da Lage não sabe a sorte que tem em a possuir. Onde mais existem dulcindas destas, de boina ou panamá na cabeça, montadas nos seus triciclos, pedalando  as compras para casa, verdadeiros repositórios do passado e forças de intervenção no presente? Ah, é verdade, e de oitenta anos? A vitalidade, a memória e a raiva desta mulher é tudo o que a gente deseja para quando for grande! O respeito pelo passado e a capacidade de (ainda) se indignar é algo que eu, cheia de vergonha, declaro já aqui serem objecto da minha grande inveja! Amar o passado virado para a frente é tão pouco habitual infelizmente!
Foi um momento de triunfo (consegui!), ouvi-la outro dia ao telefone – a narrativa está pronta, passe por cá quando quiser a buscá-la. A “narrativa” era o texto que eu lhe vinha pedindo há perto de três anos que escrevesse, onde contasse a todos o que me contava quando nos encontrávamos, sobre Porto da Lage e a família. Achava que não havia razão para isso, “ninguém ia ligar nenhuma”, ninguém estava interessado. Depois do Blog começar disse-lhe que agora já havia onde publicar, não lhe prometia grande público mas, pelo menos, meia dúzia de interessados iriam lê-la. Que não tinha tempo. No Verão passado fez-me sinal, parei o carro e atirou-me – Já comprei o caderno. O caderno? Pois, para começar a escrever aquilo! E começa quando? Isso agora! Para já não, está muito calor! Graças a Deus o Inverno foi longo e permitiu a produção do que se segue. Trata-se de facto de uma narrativa, como lhe chama a autora, bastante resumida (não posso deixar de lembrar o prazer, cheio de pormenores, de ouvir presencialmente a Dulcinda) da história de Porto da Lage  do século XX, com especial ênfase para a década da sua juventude – os anos cinquenta. Dulcinda Teixeira conta de memória o que viveu e o que ouviu dizer, é possível que, como acontece sempre nestes casos, os factos não se tenham passado exactamente assim contados pelas bocas de outros intervenientes. É uma inevitabilidade! Mas também, como acontece nas nossas casas e famílias, talvez estas situações de “desacordo” sirvam para promover mais discussão e avivar mais memórias.
Começo hoje a publicar o texto que a Dulcinda me entregou manuscrito Recordações da Nossa Aldeia, espero tê-lo respeitado integralmente (MFM):


Recordações da Nossa Aldeia

por Dulcinda Mota Teixeira

« Nos últimos tempos têm aparecido pessoas que gostam de ter conhecimento sobre as suas raízes».
                                                                                 I
                                                                         A Origem
Os Mota e os Sousa Rosa
A pequena aldeia onde nasci há oitenta anos - 1932, é uma povoação relativamente nova.
Era uma simples quinta com dois cursos de água; a ribeira que nasce perto da Serra de Aire e o ribeiro que vem de uma povoação chamada Longra.
Quando da chegada do comboio em 1864 começou a ser povoada por famílias que aqui compraram terrenos e construíram as suas casas.
Porto da Lage nos finais do século 19 era habitado por duas ou três famílias: Mota, Sousa Rosa, Santos Faustino e, um pouco mais tarde, Mendes Godinho.
Manuel Sousa Rosa veio da freguesia de Assentis já com família constituída, tivera sete filhos, quatro homens e três mulheres. Augusto Mota veio ainda novo para o lugar do Paço da Comenda e mais tarde veio a casar com uma filha de Manuel Sousa Rosa. Este casal deu à terra oito filhos, perderam uma filha jovem vítima de epidemia que dizimou grande parte da população portuguesa
A geração dos meados do sec.19 não se casou entre si mas a geração a seguir casaram-se entre si, quase todos primos em 1.º grau. Cinco casais eram primos entre si, outros cinco homens casaram com senhoras não primas. A povoação era constituída por Motas e Sousas Rosas. A juventude nascida nos finais do século 19 era tudo primos entre si
Era um tempo em que todos éramos primos e primas, tios e tias. Quase todos eram compadres por casamentos e baptizados. Uns com mais dinheiro, outros com menos.
Entre estes jovens houve um que foi mobilizado para a guerra, foi para França, teve a infelicidade de ser molestado com gases na célebre batalha de La Lys na região da Flandres
Também havia cunhadas e irmãs, uma das cunhadas que se julgava mais civilizada no meio, não perdoava nada às cunhadas Mota. Quando da separação do marido, cortou relações com as que ficaram do lado deste. Esta Gracinda Teixeira era irmã do meu pai. Não era nada meiga para as sobrinhas!
Os homens eram quase todos agricultores, cultivavam as terras que produziam azeite, figos, cereais, batata e legumes para consumo próprio. Tinham trabalhadores assalariados. Só dois pegavam na enxada para virar a terra – António Rosa Mota (da Quinta) e João Mota (dos Olivais) os dois homens mais modestos e honestos de Porto da Lage, nunca sobre eles se ouviu a menor leviandade, ao contrário de todos os outros.

Alguns pretenderam estabelecer-se com serviços de transportes para localidades vizinhas, outros para levar peixe e vendedeiras para mais longe – Sertã. Contam as netas de Manuel de Sousa Rosa (filho) que o avô quando ia em serviço, de carroça, a caminho de Tomar num local junto à Quinta da Anunciada, quando quis trocar de um carro para outro, em andamento, falhou o salto, sendo atropelado mortalmente por outra carroça. Até lhe chamavam o Manuel das carroças. Deixou três filhos pequenos mas a viúva foi mulher que não baixou os braços, ficou sempre conhecida por "tia Viúva".
Quando em 1928 começou a funcionar o ramal Lamarosa-Tomar a empresa das carroças morreu. Só Manuel Augusto Mota ficou com as descargas de vagões que traziam mercadorias para o armazém da União Fabril.
A filha mais velha do primeiro Mota (tia Anita) também se iniciou com a restauração, servindo refeições a quem por ali trabalhava e não tinha ainda família. Era viúva desde muito cedo, tinha um modesto estabelecimento de mercearias e vinhos, taberna -Vinhos e Petiscos- e com facilidade mostrava os seus dotes culinários ...                             (continua)

28 de abril de 2013

Sapatos com tachos e outros preconceitos





Quando eu era adolescente, um dos passatempos, meu e dos meus irmãos, para matarmos a grande neura do “passeio dos tristes” de carro das tardes de domingo, era elegermos a “maison” mais feia que encontrássemos pela beira da estrada. Era a época áurea em que os nossos primeiros emigrantes dos novos tempos construíam, com o mealheiro das Franças e Araganças conseguido com o seu sofrido suor, e ajuda da florescente indústria dos materiais de construção civil, as casas coloridas, azulejadas e de surpreendentes traços arquitectónicos que estarreciam e eram alvo da chacota das auto-supostas pessoas de bom gosto. Durante muito tempo, acho mesmo que sempre, ocupou o podium das nossas escolhas, uma casinha em Alburitel, mesmo no meio da povoação, ligeiramente abaixo do nível da estrada, de murosinho baixo afastado alguns metros da habitação por um pequeno jardim, revestida a azulejos, com ombreiras de portas e janelas pespontadas a conchas do mar. Conchas das mais variadas formas, desde a clássica vieira ao robusto búzio, todas bordejando o estreito passadiço central que conduzia a entrada da rua à porta da casa, os pequenos canteiros, a fonte de cimento e, como não podia deixar de ser, os frontões do portãosinho. Completava a aparência geral da casa e contribuía irremediavelmente para o seu carisma, uma árvore-da-borracha que fora forçada a entrelaçar-se por locais precisos da fachada realçando sempre as omnipresentes carapaças de moluscos. Um dia, o meu irmão J.J encontrou numa revista uma fotografia da nossa vítima, estávamos cheios de razão, “aquele aborto” constituía um exemplo, e por isso fora fotografada, da “desvirtuação da paisagem” e de utilizar uma estética (?) nada condizente com os valores arquitectónicos portugueses e com os materiais locais. Sentimo-nos recompensados e acompanhados. Tínhamos um gosto erudito e a verdade era só uma! Éramos jovens. Estamos desculpados, nada que a idade não tenha curado.

Tentei, há tempos, voltar a ver a tal casinha. Não a encontrei. Ou procurei mal ou os donos não resistiram à crítica e descaracterizaram-na. A ser assim foi pena. Lembro-me dela quando vejo as decorações de Gaudi (é bem certo que a ignorância é a mãe do preconceito) e embora todo aquele excesso decorativo do artista não me sensibilize por aí além, era também isso que me incomodava na casinha de Alburitel. Quem sabe como seria considerada no futuro? As ousadias do catalão também foram, um dia,  acusadas de aberrações!

Todas estas minhas reminiscências e contrição sobre a maison de Alburitel vieram a propósito de Joana Vasconcelos . Também é uma obra e uma artista controversa. Gostei da exposição, as obras “ligam” bem com o interior do palácio. Resta a discussão “da moda” sobre se “a artista da moda” é artista ou não é artista. Há lá peças criativas que revelam e despertam emoções, digo eu, pronto está dito, mas outras? Palavra que não me apetecia nada ter um cão ou uma lagartixa daquelas, de loiça, mal enjorcadas dentro de uma fatiota de crochet cor-de-rosa cá por casa! Por mais que olhe para aquilo, e olho com toda a boa vontade e esforço, não consigo ver para além da piroseira da renda sobre o vidrado  da bicharada. Reconheço que nada daquilo lembrava ao careca! Força criativa e imprevisibilidade não lhe faltam! Mas mede-se assim a arte?  A pôr as coisas às avessas só por que sim? Pode ser. Andy Warhol também tem disso e é glorificado! Meto os dois no mesmo saco (de crochet de seda, evidentemente) com todo o respeito, mas não me comovem.Sorry.

Agora o que eu acho é que a rapariga anda em más companhias! Mostrasse-se  ela, nem precisava de mudar de fato, os que usa encaixam-se perfeitamente, em vez de ser com o PR e figuras do governo, com a sublime esquerda moralizadora e esteta, dona da verdade, e seria, já, elevada, sei lá, a Saramago das artes plásticas, pelo menos. E aí, como com ele, deixaria de haver duas opiniões, publicáveis, claro.