Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

Si hortum in biblioteca habes deerit nihil
Todos os textos aqui publicados podem ser utilizados desde que se mencione a sua origem.

11 de outubro de 2013

O Xico Pirum




Diariamente  o Xico Santos, mais conhecido como Xico Pirum, guiava uma junta de vacas atreladas a uma galera, entre o cabeço da quinta e o forno de tijolo em Porto da Lage. O trabalho que fazia nunca se alterava. Era monótono e tranquilo. Ao ritmo do passo das vacas, partia das instalações do forno de tijolo, atravessava a povoação, a ponte sobre a ribeira, seguia pela frente da escola, do lagar e da casa do lagar. Na curva do moinho deixava a estrada, subia a ladeira da quinta até ao topo onde existira uma pequena casa que fora habitação do rendeiro e depois proprietário da Quinta da Belida. Nesse mesmo sitio havia sido descoberto um banco de argila. Chegando aí, o Xico Pirum escavava a barreira, com o auxílio de uma pá, lançava a argila para cima da galera. Depois era fazer percurso inverso e descarregar o barro junto ao forno. Este constante labor humilde e sem exigências, prolongou-se por tantos anos, quantos durou a cerâmica. Xico Pirum já fora do serviço de boieiro e com idade avançada, contava as suas desventuras com a polícia de trânsito, quando ia entregar alguma encomenda de tijolos a locais distantes e tinha que utilizar as estradas nacionais.
retirado daqui
As distâncias eram de alguns quilómetros, os animais andavam muito devagar e a ida e volta tinham que ser feitas no mesmo dia. Levava-se pasto de folhas de milho e pão de trigo ou de milho com algum conduto; toucinho de porco, petingas fritas, queijo de ovelha, bacalhau salgado e, manjar dos manjares, chouriço de carne magra de porco.
O Xico, contava ele, foi levar uma encomenda de tijolos lá para os lados de Tomar. Levantou-se de madrugada, muito antes do nascer do sol e pôs-se a caminho que, para ele e para as vacas, era bem conhecido. Quando se aproximava a íngreme ladeira de Cem Soldos, senta-se na boleia da galera, atravessa a vara de condução no colo e toca a passar pelas brasas, que o dia ainda vem longe, enquanto as vacas, muito lentamente vão subindo a ladeira; mas, azar dos azares, a Polícia de Trânsito, que não tinha trânsito para vigiar, estava especada no cimo da ladeira. Ora, segundo as leis do antigo Código Nacional das estradas, os boeiros ou condutores de bois, tinham que ir na sua frente e guiá-los  pela soga (corda ou correia atada aos chifres). O Xico vinha sentado atrás e a dormir. Código das estradas infringido, o polícia colhe os elementos contidos na licença camarária de trânsito e prescreve a multa. O Xico, na sua ingenuidade apela ao polícia, com coração de Marquês de Pombal, o perdão da multa, dizendo: as vacas quando chegassem ao topo da subida parariam para mijar, como fazem habitualmente, e eu acordava…e assim chegámos ao final da história das vacas que urinavam sempre que chegavam ao cimo da ladeira de Cem Soldos. O patrão do Xico pagou a multa de 50 escudos e foi-lhe descontando, semanalmente, 5 escudos na féria. O Xico, de peru nada tinha. O epíteto condizia melhor com  a pessoa do polícia que o multou, exibindo enfatuado uma autoridade de que fora investido, cobrando uma multa de valor superior ao valor da féria semanal do autuado. O Xico Pirum, como muitos outros Xicos que guiavam carroças de bois, de leis nada entendia e, muito menos, para que foram legisladas. Para ele, ir sentado na boleia da galera a dormir para compensar o sono interrompido às 4 ou 5 horas da madrugada, não continha qualquer prevaricação. Para o ordenador do serviço, pagar uma multa por um erro que não cometeu, não era justo. O Xico e a família com um pouco menos durante dez semanas não lhe causa qualquer preocupação. Continuará em paz e sossego a conduzir as vacas, a cavar o barro no alto da quinta, a transportá-lo para o forno de tijolo e a madrugar cedo para entregar tijolos em qualquer lugar.(Ilídio Mota Teixeira)



10 de outubro de 2013

Amor a Dar com Pau.




Ai credo!, José Malhoa


Um nosso conterrâneo estava mesmo com uma forte e violenta paixão. Para a acalmar, muniu-se de papel de carta perfumado que comprou na mercearia local, que fora aconselhado por peritos altamente colocados, sentou-se a uma tábua a servir de escrivaninha e, caligrafando o melhor que conseguia, inicia a missiva, transferindo para o papel que lhe vai no mais íntimo da alma e começa: menina Angélica, gosto muito de si…


Figura a Ler, José Malhoa

Mas por mais voltas que desse ao seu conhecimento, não havia meio de encontrar as palavras que exprimissem o seu profundo sentimento até que, na falta das ideias, aí vai: amo-a à cachaporra…e mais  algumas que não constam nos anais das gentes de Porto da Lage.
Também não consta nem constou que a carta tivesse obtido resposta positiva, o que não admirou; oferecer amor à mocada, por mais premissas que ofereça não agrada a qualquer mulher.(Ilídio Mota Teixeira)

9 de outubro de 2013

A Peregrinação dos Três Compadres




Retrocedendo aos anos de 1940, vamos assistir uma peripécia que foi contada por um dos participantes em jeito de queixume mas gozado por quem a ouviu e transmitiu mais tarde em jeito de anedota.
A hilaridade do episódio tem mais haver com a personalidade dos seus intervenientes do que com o seu conteúdo mas, aí vai: sábado de manhã, pelas oito horas de um dia qualquer, os três cunhados entre si, compadre António Rosa, compadre Manuel Augusto e compadre António da quinta vão a caminho de Tomar, na charrete do compadre Rosa.



...a  oficina do Ferrador Zé Paulo para onde entram por um
largo portão [ em frente, depois da descida da chamada Estra-
da de Paialvo]
Vão em peregrinação ao mercado semanal que aí se realiza. O trajeto não é longo e o cavalo que atrelado é fogoso e bom trotador. Cerca de meia-hora depois estão a descer a ladeira que conduz à cidade. Ao fundo está a oficina do Ferrador Zé Paulo para onde entram por um largo portão e vão prender o animal, mesmo atrelado, a uma estaca ao fundo do pátio.





Daqui dirigem-se ao centro do acontecimento: Praça da República, um belo espaço enquadrado por um belo edifício do século XVI onde a câmara municipal está instalada, uma igreja do mesmo século, Igreja São João Baptista, e diversos estabelecimentos comerciais. No centro a estátua do templário Cavaleiro de Cristo Gualdim Pães, fundador do castelo e da cidade. Os produtos expostos para venda, agrícolas em geral, são variados e em pouca quantidade. Vêem-se ovos, galinhas, coelhos, queijinhos de leite de ovelha, couves, batatas, ervilhas, favas, feijão, grão de bico e uma ou outra peça de barro vermelho. Nas épocas dos granjeios das hortas e das vinhas, há molhinhos de Cebolinho, pés de couve e bacelo bravo. No mesmo dia havia também o mercado quotidiano que se situava nas traseiras do edifício da Câmara.
A Peregrinação dos compadres, de boa memória e que há muito tempo deixaram o convívio dos vivos, é rotineira. Observa-se o que está à venda, compra-se algum utensílio da loja de ferragens se for necessário, um funil no latoeiro ou um balde ou ainda um caneco, trocam-se umas opiniões com este ou aquele vendedor, encontra-se um amigo conhecido de longa data, trocam-se umas informações de interesse mútuo e surge o convite indispensável: uns copos de palhete na taberna da esquina da rua que conduz à praça. Vai uma rodada, vai outra que agora pago eu, mais uma  que agora é da minha conta e as conversas começam a ser prolongadas e amistosas. Os estômagos estão vazios e depressa os 11 graus do palhete sobem ao topo.

O mercado de Tomar no local a que se refere o autor no inicio do sec. XX, ainda sem a estátua de Gualdim Pais

Chega-se a hora de regressar a casa. Apertos de mão e até qualquer dia. Já no Zé Paulo, desprende-se o cavalo que está inquieto e quer regressar à palha, é guiado até ao início da ladeira que desceu na vinda. A subida é longa e cansativa. Quando se chega ao topo é necessário "dar de beber à sede", quer às pessoas quer aos animais. Para saciar, está lá o Elias, ponto estratégico, com paragem obrigatória, de longa tradição. Mais uma rodada para a cumprir e de novo a caminho. O compadre Rosa toma o seu lugar de condutor, rédeas na mão, cigarro barrigudo apagado colado ao lábio inferior canto da boca, rosto congestionado, pálpebras inferiores avermelhadas, alivia o travão, dá rédeas ao cavalo e aí vai caminho de casa. O compadre António da quinta, sem dizer uma palavra, um pouco ensonado, vai sentado ao seu lado. É sóbrio nas bebidas e comidas mas nestas circunstâncias excedeu-se um pouco. É  mais versado na agricultura que nos negócios de ocasião. A segunda etapa do regresso é percorrida mais facilmente. É sempre a descer, salvo uma subida. Entram em Porto da Lage, seguem na direcção da azenha e…. ponto final. Rédeas  no descanso, Um pé no estribo outro no chão e… o compadre Manel? Tinha ficado no Elias. Não teve tempo nem agilidade para subir à charrete. Chegou a casa algumas horas depois. Pelo caminho veio destilando os 11 volumes do palhete. (Ilídio Mota Teixeira) 






8 de outubro de 2013

Largo da Estação


Nas duas décadas de 1930 1940, este largo foi ao centro da actividade económica da pequena população que emergiu com chegada do comboio na segunda metade do século XIX.

À sua volta estabeleciam-se uma oficina de barbearia, um estabelecimento, bem amplo, com venda de produtos de mercearia, vinho, posto de correio e telefone, uma outra mercearia também muito bem implantada, uma farmácia com técnico farmacêutico permanente, um depósito-armazém de adubos e uma pequena loja de panos com um armazém de sal anexo.



Algumas casa do "largo" hoje.


O movimento que por aqui se fazia era de notar. Passageiros que chegavam e outros que partiam, mercadorias chegavam consignadas à destilaria do álcool, ao forno de tijolo ou cerâmica de barro vermelho, ao armazém do sal, ao depósito de adubos, um ou outro vagão com fardos de palha para alimento de animais. Da região do Pombal chegavam também vagões com desperdícios das serrações de madeira, para serem queimados nos fornos da padaria da cerâmica.

Das povoações vizinhas - Outeiros, do concelho de Torres Novas, vinham os peleiros com os saldos dos animais que não haviam conseguido colocar durante o mercado semanal de Tomar. Traziam cabritos, coelhos e galinhas. Quando conseguiam comprador, que não era fácil, matavam o animal, penduravam-no nas grades de ferro, esfolavam-no e tirava-lhe as vísceras, que davam aos cães que por ali vagueassem. Estes negociantes, geralmente rapazes entre os 15 e os 20 anos, deslocavam-se cavalgando asnos, de aldeia em aldeia, pregoando a compra de peles, ceras, metais, trapos, lãs e outras sucatas.


Largo da estação nos anos 80 (o mais antigo que consegui arranjar)
 


Ainda no largo da estação nos anos de 30, estacionava algumas vezes nas tardes de sábado, um automóvel dos anos de 20, que vinha de Tomar. Sobre banco de trás trazia um estrado de madeira com alguma carne de bovino. Quando chegava tocava uma corneta. Trazia uns ossos que temperavam muito bem a sopa de massa que se comia ao domingo.


Largo da Estação hoje.






Nos anos de 1943 e 1944, em pleno conflito mundial de 39/45, a estação de Paialvo teve movimento extra com candongueiros que vinham do Porto e outros que se dirigiam a Lisboa.

 Vinham em pequenos grupos nos comboios da madrugada, com uma ou duas malas de viagem para ocultarem as embalagens que traziam dentro. Abasteciam-se onde melhor lhes parecia e partiam no comboio que os levasse ao Porto. Algumas vezes eram perseguidos pelos fiscais da Intendência Geral de Abastecimentos que lhes aprendiam o que transportavam. O exercício da candonga era arriscado mas compensava. (Ilídio Mota Teixeira) 


7 de outubro de 2013

Baptisados de Portalegenses









Em 1.º dia do mês de Setembro  de seiscentos e noventa e sete anos baptisei e pus os santos óleos a Josepha filha de Joseph Lopes e de sua mulher Maria Lopes  moradores no Porto da Lagem, padrinhos Joseph Godinho Ribeiro por procuração de Luísa Roiz da Ribeira de Litém do Bispado de Leiria e por ser verdade fiz este assento que assinei dia mês ano supra

Frei António Amador




Em vinte e oito dias do mês de Abril do ano de setecentos e um   baptisei e pus os santos óleos a Manuel filho de Simão Roiz e de sua mulher Isabel Freire moradores no Porto da Lagem, padrinhos Manuel Gavião de Fungalvaz e Maria Freire de Carvalhal do Pombo, freguesia de Assentis, e por ser verdade fiz este assento que assinei dia mês ano supra

Frei António Amador

 Fonte: Assentos de Baptismo da Madalena, Fundo dos Registos Paroquiais da Torre do Tombo





29 de setembro de 2013

Tempo de Eleições - Evito Mais de Lá Voltar



Em tempo de eleições, o exemplo de um dia das ditas em Porto da Lage há quase 54 anos contado pelo eleitor João Pereira da Mota: ... ao passar à escola apareceu o meu irmão António e M. Rosa, deu-me uma lista e votei, evito mais de lá voltar ...


[Durante o Estado Novo realizaram-se eleições para as Juntas de Freguesia,  legislativas e presidenciais (estas até 1958).
Havia dois processos de recenseamento dos eleitores: a inscrição oficiosa, feita pelas comissões concelhias de recenseamento (compostas por elementos da União Nacional) com base nas indicações fornecidas pelos serviços públicos e que eram instruídas para “aumentar o número de eleitores de reconhecida idoneidade política” e a livre inscrição de eleitores, que era praticamente insignificante.
Podiam votar os homens maiores de 21 anos, chefes de família, que soubessem ler e escrever e contribuíssem com um determinado valor para o Estado, bem como um número muito restrito de mulheres que fossem chefes de família, tivessem curso geral dos liceus ou curso superior ou contribuíssem com uma determinada quantia para o Estado. Não podiam ser eleitores todos os que o Governo considerasse que “professassem ideias contrárias à existência de Portugal como Estado independente e à disciplina social e os que notoriamente carecessem de idoneidade moral”.
Os boletins de voto eram fabricados e distribuídos pelas candidaturas, não podendo haver qualquer tipo de diferenças entre eles. Assim, a oposição, nas eleições em que era permitida a sua candidatura, tinha de tentar averiguar como eram os boletins de voto da União Nacional para poder fabricar iguais. A simples diferença de milímetros na espessura do papel ou uma ténue diferença na tonalidade da cor era o suficiente para anular os boletins da oposição. Estes boletins eram distribuídos pelos eleitores por elementos das próprias candidaturas o que colocava entraves à oposição pois  não tendo acesso à cópia dos cadernos eleitorais não sabia quem estava ou não recenseado para poder distribuí-los.] (MFM)
Nota: As condições politicas e sociais em que se desenvolviam as eleições na época referida penso que são conhecidas de todos. Pretendeu-se aqui apenas dar um pequeno contributo para recordar o seu ordenamento legislativo e técnico; quem tiver a mesma curiosidade relativamente à Monarquia Constitucional e à  1.ª República, estes links apresentam excelentes resumos.

25 de setembro de 2013

Cristãos-Velhos e Porto da Lage


As habilitações de genere são posteriores ao Breve "Dudum charissimi in Christo" do papa Xisto V, de 25 de Janeiro de 1588, que proibia o provimento de benefícios em pessoas com ascendência de cristãos novos.

Francisco de Quevedo(1580-1645), orgulhoso
cristão-velho:
Yo te untaré mis obras con tocino/
 porque no me las muerdas,
 Ninguém, mesmo apresentado pelo bispo ou pelo Papa, podia tomar posse de um benefício dentro da diocese, sem se tornar previamente “habilitado”, ou seja, sem ser submetido a rigoroso inquérito cuja conclusão provasse que o próprio e a sua ascendência eram cristãos-velhos, sem mistura de judeu ou outra raça. Inquirições de genere eram pois inquéritos à ascendência que tinham por finalidade provar a limpeza de sangue dos candidatos a determinados cargos e que davam origem a processos. Nos candidatos à vida clerical a habilitação de genere era condição para o requerimento da primeira tonsura.  O processo de habilitação iniciava-se com a petição do habilitando dirigida ao bispo da sua diocese, onde constava a filiação, a naturalidade dos pais, os nomes e naturalidade dos avós paternos e maternos. Na altura o habilitando depositava na Câmara Eclesiástica, a quantia necessária para as despesas das diligências, sendo-lhe passado um recibo. Sendo necessário fazer diligências noutra diocese, o juiz das habilitações de genere enviava ao respectivo juiz ordinário, uma precatória ou requisitória de habilitação.

Para proceder às respectivas diligências, existia um juiz comissário que, com o seu secretário, se deslocava ordinariamente às freguesias de naturalidade dos inquiridos, dos seus pais e dos seus avós, com a finalidade de proceder ao inquérito. O comissário começava por abordar os párocos das freguesias dos inquiridos, encarregando-os de nela escolherem as testemunhas. O interrogatório era então feito àquelas testemunhas, em número de oito ou mais, idóneas e bem informadas. Os depoimentos eram jurados sobre os Santos Evangelhos e com declaração de pena de excomunhão contra os transgressores. Uma das normas impostas consistia em guardar segredo sobre as declarações prestadas. Os inquéritos obedeciam a seis quesitos. Destes, os cinco primeiros diziam respeito ao conhecimento dos indivíduos em causa e dos seus ascendentes – pais e avós paternos e maternos. No sexto, perguntava-se se eles foram sempre cristãos e limpos de sangue. Inquiria-se ainda se alguma dessas pessoas fora alguma vez penitenciada pelo Santo Ofício, se pagara finta lançada a gente hebraica, se cometera crime de heresia, se incorrera em infâmias e coisas semelhantes. Da instrução também faziam parte, as certidões de baptismo do habilitando e de seus ascendentes, as certidões de casamento dos pais e avós, podendo ainda constar as declarações dos ofícios dos pais e avós paternos e maternos, entre outros documentos.
A sentença dada em relação, confirmava a informação genealógica do habilitando. Se a quantia depositada excedesse as despesas das diligências, o depositante era reembolsado, assinando o recibo que ficava no processo.

Os irmãos Manuel da Costa e Simão da Costa, candidatos a padres, moradores no Arcebispado de Lisboa “há muitos anos e naturais da Prelazia de Tomar, freguesia de Santa Maria Madalena”, filhos de Manuel Dias e Maria da Costa, moradores em Cem Soldos, netos paternos de Belchior Dias e Catarina João e maternos de Simão da Costa e Filipa Simoa, pedem que lhe seja feita a sua inquirição de genere em 20 de Dezembro de 1695. Nesta sequência é enviada uma carta precatória para Tomar, cujo juiz despacha no sentido de serem feitas diligências na Madalena. Em Cem Soldos são ouvidas dez testemunhas, incluindo um padre, não percebi se seria ou teria sido o pároco, embora a sua idade, 93 anos (pouco mais ou menos, como todos os interrogados) indique que já não estivesse em actividade, digo eu. Pois além do padre Matheus Nunes depõem Manuel Vaz, Manuel Lopes Mourão, Manuel Dias Carvalho, Manuel Gonçalves, todos eles de aproximadamente 62, 87, 72 e 60 anos , Grácia Nunes viúva, também com 93 anos “pouco mais ou menos”, João Lopes, homem solteiro que foi lavrador, com 90 anos “pouco mais ou menos” , António Lopes, António Jorge e António Nunes, todos trabalhadores com 44, 52 e 62 anos “pouco mais ou menos”, respectivamente. Todos se pronunciam sobre o grau de conhecimento que têm ou tiveram com os habilitantes, com os pais e com os quatro avós. A alguns conheceram de toda a vida de outros só ouviram falar. Do que conhecem garantem ser baptizado, cristão-velho sem mancha de judeu, mouro, mulato, mourisco ou de outra nação infecta das reprovadas em direito pela nossa Santa Fé Católica. De cada declaração é lavrado auto que é assinado com nome ou cruz.

No final do processo a sentença, emitida em finais de 1696, conclui pela limpeza de sangue dos dois manos que terão sido, esperemos que sim, dois saudáveis e felizes representantes da sua igreja, enquanto foram vivos. Depois …esperemos que também.

À semelhança dos irmãos Costa, em 1716 o padre Manuel Escudeiro, também de Cem Soldos, o padre Manuel Lopes Brandilanças em 1699,o padre  Manuel de Sousa em 1704 e o padre João de Sousa em 1714, todos os três de Assentis, foram sujeitos a inquirições de genere e a todos foi certificado que detinham a competente pureza de sangue. Todos eles pertencem a famílias - Costa, Escudeiro e Sousa – que, por sua vez, deram origem às gentes de Porto da Lage.   Manuel de Sousa Rosa é descendente directo dos pais de todos aqueles padres, à excepção dos Costa. Augusto Motta através do lado materno descende dos Sousa e dos Escudeiro e, do paterno, dos Costa. Mas, a bem da verdade eu já intuía, não precisava de tanta inquirição para saber que os que eu conheci só podiam ser “da boa e velha cepa” de cristãos velhos! (MFM)

O Padre António Vieira  lutou para acabar com a distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos,
 não o conseguindo. Curiosamente foi o Marquês de Pombal, inimigo dos jesuítas, que acabou com tal distinção
 em 1772.


                                                          
Bibliografia Consultada: ADVIS , boletim informativo do Arquivo Distrital de Viseu; site da Torre do Tombo

23 de setembro de 2013

Porto da Lage nas Estradas Romanas






Mapas constantes da publicação: "Subsídios para a Carta Arqueológica do Concelho de Tomar"
de Maria João Mêndia de Castro, Lisboa, 1973- Dissertação para a Licenciatura em História, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 

10 de setembro de 2013

Recordar é Matar Saudades 8

A diáspora portuguesa, na qual se insere, à sua medida, a portalegense, trouxe sempre o seu reverso – os torna-viagem mais os de fora arrastados por aqueles. É o caso que, desta vez, Dulcinda Teixeira nos conta. José Pereira da Mota, natural das Sobreiras onde nasce em 1908, filho de mãe portalegense, parte, rapaz novo, no final dos anos vinte do século passado à procura de vida melhor para a distante colónia de Moçambique. Por lá prospera e se liga por casamento a uma família de origem mauriciana. Por sua influência, um sobrinho da mulher vem frequentar o colégio em Tomar e assenta arraiais nas férias por Porto da Lage e Paço da Comenda. Parece que a simpatia e o desprendimento africanos encantam de modo geral os nativos, fascinam as raparigas, contendem as mães e provocam, por fim, casamento. O estudante moçambicano constitui então família com uma local e com ela regressa à terra de partida, com passagem por outros mundos. Por fim, a volta derradeira. José Pereira da Mota, a causa do rumo destas vidas, repousa, por vontade expressa, no cemitério de Cem Soldos.(MFM)


Quem era Luís Charles Dupont?

Luís Dupont com um grupo de PL em 1952

Se não estou em erro de memória nos finais do verão de 1948 chegou a Lisboa um jovem vindo de Moçambique com destino ao velho colégio Nun’Alvares em Tomar ainda situado na Av. Dr. Cândido Madureira, em frente ao hospital da Misericórdia.
Esse jovem era sobrinho da esposa de um senhor natural das Sobreiras, de seu nome José Pereira da Mota (filho de uma Brigida Rosa Motta, das Sobreiras e de um António Pereira, dos Gaios) o qual, muito jovem nos finais dos anos 20, emigrou para Moçambique. Sei que em rapaz tinha sido empregado na mercearia da tia Anita e do tio António da Quinta.
Ora o Luís Dupont ao chegar à Metrópole como ainda não havia aulas veio para casa da mãe de José Mota. Quando começou o ano lectivo foi interno para o Colégio e vinha nas férias para as Sobreiras.
O Luís era muito comunicativo, atencioso, vestia calção branco e camisa branca, tinha mesmo um ar de África e lá no Paço da Comenda havia uma ou duas raparigas que andavam encantadas com ele.
O Luís morou ainda, durante as férias, em casa de uma senhora D.Conceição que devia pesar mais de cem quilos e morava ao lado do José Alfaiate na estrada para Torres Novas e também nas águas furtadas da casa do Dr. Henrique Mota, por cima do Taxa, pai da Estela. Depois houve confusão entre as mães da Estela e da Lurdes Nunes e o Luís deixa aquela casa. Agora não sei se ele veio das Sobreiras para a casa da D. Conceição ou se foi das águas furtadas para a D. Conceição.
Aquela D. Conceição não era de cá, veio da freguesia das Olalhas concelho de Tomar, não sei como vieram aqui parar. O Quim Bernardo, seu neto, deve saber. A mãe do Quim era filha da D. Conceição. Não me lembro do Quim ser bebé, recordo-me de ele ser menino de três/ quatro anos a caminho de Paialvo no meio da mãe e da avó, íamos para a missa. Gentes de fora que vieram para a nossa terra por várias razões.
Em 1951 ou 1952 o Luís frequentava Medicina na Universidade em Coimbra e já namorava com a Lurdes cuja família se mudou para o Paço da Comenda, eu já pouco o via embora ele viesse aqui passar férias.
Formou-se em Medicina, casou e nasceu o primeiro filho, passados dois ou três meses foi para os EUA 5 anos com uma bolsa. Em 1964 regressou com a família a Lourenço Marques, nasceu lá a filha em 1967. O Luís e a Lurdes em Lourenço Marques foram muito meus amigos. Ele tinha consultório numa avenida da baixa. Quando eu podia ia lá um bocadinho conversar com a Lurdes.
Também em Lourenço Marques conheci os pais do Luís, os dois irmãos e a irmã. Conheci também o José Pereira da Mota de que falei atrás, a esposa, que era tia do Luís, irmã da mãe, e as três filhas. Enfim, conheci os Dupont todos. O pai do Luís era natural das ilhas Maurícias, a mãe era uma mistura de África com Ásia, pelo menos parecia-me. A esposa de José Mota era uma bonita mulher. Cabelos negros muito encaracolados, pele branca mimosa, com traços (nariz) africanos. O Luís em Lourenço Marques era mais mauriciano do que africano. Os filhos do Luís, o mais velho e o mais novo já tinham traços europeus. A filha que faleceu depois da mãe quinze anos, quem a conheceu aos vinte anos, diz que era uma beleza exótica. O filho do meio, o Tony, é o retrato vivo do pai. Tinha todo o orgulho em dizer “eu sou americano”. Nasceu em Boston, um ano depois da minha filha.
Os dois rapazes filhos do casal devem viver ainda no Porto. Casaram, descasaram, voltaram a casar, etc.
Em 1974 regressámos todos às origens. A família Dupont instalou-se na cidade do Porto. Quando eu regressei da África do Sul a Lurdes já estava doente tendo vindo a falecer vítima de câncer da mama, a mesma fatalidade que levou há 13 ou 14 anos a filha que deixou um bebé com um ano.
Em 1976 ainda vi os cinco em casa do Ilídio no Porto.
A doença do Luís agravou-se muito algum tempo depois de ter casado 2.ª vez com uma médica da Figueira da Foz. O Luís faleceu no princípio de 2012, diabetes ao mais alto grau.
A última vez que o vi foi há uns treze anos, no tribunal quando do divórcio de uns amigos nossos.
A estória do percurso do casal Dupont foi muito cheia de trabalho, nome, bem-estar, economicamente um sucesso, mas infelizmente não lhes faltaram doenças. (Dulcinda Mota Teixeira)

3 de setembro de 2013

Recordar é Matar Saudades 7

                                           
                                                            Saída Para a Missa


... a manobra correu mal e lá vai tudo parar à ribeira.... *

Não sei ao certo que idade tinha um rapazinho que este ano completa 79 anos. Calculo que esta facto aconteceu em 1941 ou 1942. Seria Primavera porque a ribeira não levava muita água. Era Domingo, horas de sair de casa na charrette a caminho de Cem Soldos para participar na Missa das 9h 30m como foi habitual durante largos anos.
Quem queria ir à missa? Era a tia Anita Rosa Mota, mãe do sr. João Narciso e avó do Henrique António Narciso (teria talvez oito anos e tal). A senhora era casada com o meu tio António (da Quinta) pessoa muito cuidadosa com os animais e muito competente para conduzir um cavalo, macho ou uma junta de bois. Não sei dizer por que razão o tio António não tomou a seu cuidado preparar a charrette e o cavalo com os seus arreios para atrelar o animal. A casa de habitação tinha um pátio calcetado onde se atrelava o cavalo e as pessoas subiam para a charrette. Para sair, passavam por um túnel de baixo da casa, um espaço que vinha dar à estrada, fechado pelo portão. Contava, quem viu o acidente, que a avó e o neto vinham em cima da charrette quando saíram do portão. Ao lado da entrada segue a ribeira. Nesta data a Câmara ainda não tinha feito as obras que agora existem. Em frente do portão havia, do lado da ribeira, um murete com dois ou três metros de comprimento e 50 cm de altura. Penso que a charrette vinha de marcha atrás. A manobra correu mal e lá vai tudo parar à ribeira.
Lembro-me que quando cheguei lá a casa com a minha mãe, o Henrique estava embrulhado num cobertor com a cabeça molhada e a avó estava a ser tratada pelo irmão Henrique (médico) e tinha sangue na cabeça. Não me lembro de ver o tio António, nem sei se o cavalo ficou ferido e a charrette ficou inteira. Se o Henrique se lembra só ele pode corrigir-me. As pessoas (10) que ali moravam já todos faleceram, bem como os pais do Henrique que não moravam ali.
Quem teria sido o culpado da aventura frustrada só o neto, a avó e o marido da avó saberiam.
Lembras-te Henrique?  (Dulcinda Mota Teixeira)

* Pormenor retirado da ilustração daqui

2 de setembro de 2013

Recordar é Matar Saudades 6

                                Serenata a Fungalvaz

No inicio do Grémio a juventude masculina andava muito motivada com a cultura. Havia quem os estimulasse. Então, talvez por volta de 1935 ou 36 formaram um grupo de alunos de música. Violinos, guitarras, violas, cavaquinho e não sei que mais. Quando os futuros elementos da banda de Porto da Lage já sabiam arrancar os sons dos seus instrumentais combinaram ir uma noite até uma povoação que se chama Fungalvaz que dista daqui uns três quilómetros.
O que iam os jovens de Porto da Lage fazer a Fungalvaz de noite? Uma serenata às jovens de lá!
Mas correu muito mal! Os jovens de lá não aceitaram a visita dos vizinhos românticos. Correram-nos com pedras e paus.
Os nossos para lá foram estrada fora, no regresso vieram a corta-mato, camuflados com as hortas e vinhas. Um perdeu o arco do violino, outro estragou a guitarra. Chegaram a porto salvo arranhados e rotos.
Esses jovens hoje teriam cem anos, uns mais outros menos. O meu irmão este ano completava 90 anos, era dos mais novos, não sei se participou nesta serenata. O seu violino esteve intacto muitos anos em casa dos pais, levaram-no para o Porto e não sei que caminho levou.
Não sei as letras das canções desta época mas recordo-me de ouvir as minhas irmãs mais velhas cantarolar: “ A chita da minha blusa já não se usa…”, outra era a do Zé Ninguém …”Soldado lá das trincheiras, se vires o porta-bandeira …, outra ainda “…oh Ribatejo pai do meu Tejo, já te não vejo sempre a cantar…”
Ainda hoje quando há programas de canções de sempre volto à minha infância tão distante! (Dulcinda Mota Teixeira)


Fungalvaz by night (foto tirada da net). Haveria luar naquela noite?




30 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades 5


                                                              Varejo Doutrinal




Escola Primária de Cem Soldos



Havia noutros tempos uma tradição praticada pela rapaziada de Cem Soldos. Já no alvorecer do sec. XX quando a minha mãe lá frequentava a escola primária – parece que a “mestra” era uma D. Júlia – contaria ela nove ou dez anos, à hora que as crianças grandes ou pequenas desciam a ladeira de regresso a casa a rapaziada local vinha para as terras mais elevadas frente à estrada e mandava pedras e torrões para fazer perseguição aos que não eram de lá. Isto manteve-se durante décadas.
Quando da doutrina de 1944 ainda mantinham essa antipática tradição. Ora aconteceu que a falecida Helena Leonardo era a mais alta do grupo e apanhou com um torrão nas costas.
A Helena participou o acontecido ao sr. Prior, ele ouviu e disse:
- Está bem!
Na aula da doutrina seguinte, já estávamos todos na sacristia quando chegou o sr. Prior com uma vara disfarçada com a batina.
- Olha lá menina, qual destes rapazes mandou o torrão?
A Helena apontou o tal rapaz. O sr. Prior chamou-o:
- Anda cá!
O rapaz levou uma sova com a vara que até fez xixi pelas pernas abaixo.
Se o rapaz ainda for vivo terá talvez 82 anos, será que ele ainda se lembra?
(Dulcinda Mota Teixeira)




29 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades 4

                                                Comunhão do ano de 1944

Vou recordar o ano de 1944. As crianças dessa data eram: Marília Reis, Maria do Rosário Vasconcelos, Maria de Lurdes Nunes, Maria do Rosário Batista, Maria Helena Leonardo, Maria Filomena Narciso, Dulcinda Teixeira, penso que a Silvina e a Celeste Sousa também iam no grupo.
Rapazes: Henrique João, Henrique António, Mário Reis.
Ora este ranchinho ia todos os dias à tarde para Cem Soldos, quase 3 km, para a doutrina com o Prior.
Nesse ano havia um menino de Cem Soldos com sete anos, de nome António Mourão Corte Real que ia fazer a primeira comunhão.
A mãe do menino quis fazer a festa toda à sua custa. Ao aproximar-se o dia grande havia ensaios com a criançada. A senhora, mãe do menino, mandou vir não sei de onde alguns fatos de anjo para dar mais solenidade à festa.
Dois ou três dias antes havia montes e braçadas de verduras de mato para engalanar as portas e arcos da velha igreja de S. Sebastião (finais do sec. XVI) e atapetar as ruas da aldeia para passar a procissão (faz lembrar o João Villaret).
 Eram homens e rapazes com escadas para colocar as grinaldas verdes e as colchas adamascadas das famílias ricas de Cem Soldos. A igreja ficou muito bonita.
No dia da festa os pais do menino Corte Real serviram o pequeno-almoço depois da comunhão a todas as crianças presentes. Mais tarde, não sei a que horas, serviram o almoço: sopa e carne não sei de quê, muitos meninos e meninas comeram que se regalaram mas outros (eu) não apreciaram muito o banquete.

 retirado daqui
À tarde formou-se a procissão, os anjinhos de asas brancas, as raparigas da JACF, os seminaristas do seminário de Tomar, os homens da Confraria de capas vermelhas, o Prior e mais um ou dois padres, debaixo do pálio.
Foguetes e mais foguetes, uma menina a chorar por causa dos foguetes, etc.
Ora aconteceu que com os fatos de anjo de asas brancas veio um fato de S. João Batista destinado a um rapazinho filho de uma professora da terra.
O nosso Augustito Carmona da Mota nessa data teria 5 anos e a avó Conceição Carmona mandou, para o seu neto vestir, um fato de anjo de asas brancas. Quando as senhoras de Cem Soldos começaram a vestir os anjinhos, o filho da professora negou-se a vestir o fato de S. João Batista. As senhoras, então, resolveram, sem pedir opinião à mãe, vestir o Motinha de São João. O fato de anjo que era para o neto da D. Conceição Carmona vestiram-no a outra criança.


A D. Maria José Carmona da Mota quando viu o filho vestido de São João não fez escândalo porque era uma senhora. Chorou, protestou, desabafou com o marido: “ o meu filho ia vestido de palhaço”.
A festa acabou ao fim da tarde, julgo que era dia de Corpo de Deus. Nunca mais esqueci os pormenores deste dia.
Hoje ainda lá está a igreja com algumas alterações no altar, assim como em todas as igrejas depois do Concilio Vaticano II. O menino Corte Real faleceu novo, assim como os pais. A herdeira do menino vendeu a moradia cinzenta, no adro. Dos que em 1944 assistiram à festa já quase todos partiram e das crianças do grupo de Porto da Lage já partiram 2 raparigas e o resto estão com 75, 76, 77 e 80 anos.
Recordar é matar saudades.
9-07-2013 (Dulcinda Mota Teixeira)



28 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades 3



                                                        O Padre Nicolau
                       
                                                                                              (continuação)
Em maio de 1954 a nossa freguesia foi percorrida pela imagem de N.S de Fátima, mas como a nossa casa tinha muitas janelas e poucas colchas eu tinha exposta uma toalha de linho bordada com motivos azuis. O prior observou e gostou.
Quando me encontrou pediu-me a toalha para mandar colocar no púlpito no dia 15 de agosto - a grande festa dele era o dia 15 de agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora. Tive muito gosto em ouvir o sermão a olhar para a minha toalha. Já lá vão 59 anos e ainda a tenho. Não sei se a minha filha ou netos a mandarão para o contentor da Cruz Vermelha.
Lembro-me de ele ter uma empregada a quem chamavam “a panela”. O Prior andava saturado de a aturar não me lembro porquê e ela foi-se embora.
Mais tarde, já eu tinha uns vinte anos, o prior parou aqui à porta e falando com a minha mãe queixava-se de não ter quem o servisse. Eu, sabendo que ele não podia ouvir falar nela atrevi-me a propor-lhe “a panela”. Resposta:
- Menina, se quer ganhar o céu leve-a para sua casa!

Teve também a viver e a tomar conta do serviço da casa uma tia dele. Queixava-se que a tia para cozinhar galinha tinha que juntar vaca e para cozinhar vaca tinha que juntar galinha – ficava caro.
Quando tinha festas de igreja e convidava um ou dois padres para ajudarem, a tia cozinhava pouca comida, então sem a tia perceber pedia à esposa do médico para lhe fazer uma panela de sopa a título de oferta.

A localidade de Cem Soldos não tinha padaria. Ia para lá o pão da padaria do sr. Jorge e era o filho – Artur – que ia lá vender o pão. Nessa altura o Artur era rapazola e ia à porta do Prior entregar o pão. Então o Prior que tinha sempre assunto para brincar dizia-lhe:
- Quando fores à confissão a penitência consiste em comer pão duro. O pão macio sabe muito bem, tens que fazer sacrifícios.
Estas passagens do dia-a-dia nas aldeias passariam despercebidas se não fossem observadas por um padre. Uns achavam graça, outros nem tanto.
Havia até paroquianos que o acusavam de não ser igual para todos.
Quando o Manuel e eu nos casámos o meu sogro convidou o Prior Nicolau para ir a Lisboa realizar o nosso enlace na igreja de S. João de Deus, em plena praça de Londres. Foi um bocado complicado, os casamentos ao domingo. Aqui tinha que celebrar três missas e a viagem. Tentou demover o meu sogro, acabou por aceitar mas teve que falar a outro sacerdote para o substituir aqui. Não sei se o prior foi com o amigo Dr. Henrique se com alguém da minha família. Chegou a comentar que a igreja de S. João de Deus não era para padres da aldeia. Mas foi depois ao casamento do irmão do Manuel, voltou para casar a 1.º filha deles e em 1963 no dia 10 de junho foi batizada a minha filha.
Despedi-me dele quando fui para Lourenço Marques, ainda lhe enviei um cartão de boas festas. Quando eu fiz anos agradeceu e retribuiu as BF e cumprimentou pelo aniversário.
Não sei ao certo em que data o prior ao subir as escadas, 1.º andar, da sua residência se desequilibrou, caiu, veio pelas escadas e bateu com a cabeça num vaso. Foi para o hospital, do hospital para um lar e nunca mais recuperou. Eu estava em Moçambique.
Viveu não sei se três ou quatro anos sem consciência de quem era.
A notícia da sua morte em 1971 sensibilizou-me tanto como se fosse um elemento da família. Hoje, sempre que vou ao cemitério de Cem Soldos paro uns minutos junto da sua sepultura.

Paz à sua alma,

9.07-2013(Dulcinda Mota Teixeira)

27 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades 2

                                                                          O Padre Nicolau                   (continuação)


Eu era garota quando um dia indo eu e uma rapariga a atravessar uma propriedade de meus pais – Casal Negro – o Prior passou por nós na sua montada. Deu os bons dias e perguntou-me:
- Olha lá, de quem é esta fazenda?
Eu, um pouco tímida respondi – É dos meus pais.
Vim a saber mais tarde que ele pensava que eu respondia – É minha!
Lembro-me que quando os jovens resolviam contrair matrimónio iam ao domingo à missa e procuravam o prior para dar início ao processo. Uma ocasião, talvez há setenta anos, um rapaz que pretendia casar foi ter com o prior. Às primeiras perguntas do questionário o padre percebeu que o pretendente ao casamento não estava sóbrio. Disse-lhe:
- Olhe sr. João, para a semana venha cá outra vez mas não vá à taberna do Cartaxo, venha primeiro falar comigo.
Aqui nesta região quando as mães tinham os bebés em casa eram acompanhadas por uma mulher curiosa que ajudava ao parto. Essa mulher é que por norma levava a criança ao colo à Igreja para batizar. Ia o pai, o padrinho, a madrinha e mais quem queria ir. Durante o batismo era sempre a parteira que segurava a criança. Ora tinha acontecido que em determinado batizado essa mesma senhora parteira tinha posto na boca de um bebé um pedacinho de coscorão (massa frita). O bebé engasgou-se. O Prior sabia da estória e quando estava a decorrer o ritual do batismo doutra criança o neófito começou a chorar e não se calava. O prior então lembrou-se do outro e disse:
- …se lhe dessem um bocadinho de coscorão ….?
Outra vez ouvi eu o Prior a comentar o estado em que uma noiva levava as unhas para o altar: “…parecia que tinha andado a cavar com as mãos antes de ir para a Igreja”.
Quando eu e o meu marido namorávamos, durante a colheita da azeitona o Manuel tirou uns dias de férias (na tropa) e veio à Fonte da Longra passar uns dias. Dirigiu-se ao olival onde o pai andava a ajudar a colheita. O Manuel teve o cuidado de por umas luvas para trabalhar melhor. O meu sogro era muito amigo do Prior. Sabendo o Prior que o amigo andava perto da povoação e vindo ele da capela de celebrar missa encaminhou-se para ir ao encontro do amigo. O Manuel quando percebeu que o prior ia ao encontro deles tirou logo as luvas. Mas mesmo assim o Prior viu as luvas a serem retiradas das mãos.
Passados dois ou três dias o prior passou por Porto da Lage e ao cruzar-se com uma prima minha que ia de luvas informou-a de que tinha passado a um olival e andava um homem a apanhar azeitona de luvas. Claro que nomeou quem era o homem. A minha prima assim que pode veio contar-me a estória das luvas.
O padre Nicolau não gostava de casamentos por procuração nem de casamentos com noivos demasiado jovens. Quando lhe aparecia um casamento por procuração em que a rapariga nem sequer conhecia o futuro marido punha todas as dificuldades.
Na época de 40 a 45 as saias das mulheres e raparigas usavam-se por cima do joelho, o prior não suportava tal moda. Na paróquia havia um pequeno ramo da Juventude Agrária Católica Feminina (JACF), quando o grupo se reunia para a celebração da eucaristia ou outras atividades, todas vestiam a saia azul escura e a blusa azul clara. Houve um ano em que a JACF quis festejar o dia do padroeiro S. Sebastião, o prior concordou que faria a festa mas com a condição que quem usava a saia curta teria que descer a bainha. Não sei se desceram, eu nessa época teria nove ou dez anos.(Dulcinda Mota Teixeira)                              

                                                                                       (continua)

26 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades 1

                                                                 O Padre Nicolau


O nosso saudoso Reverendo padre António Joaquim Nicolau chegou às freguesias da Madalena e Beselga no ano de 1933. Eu tinha nascido há poucos meses por tal razão só quando atingi os meus sete anos é que comecei a ter a imagem deste sacerdote. Quando fiz a minha primeira comunhão já tinha feito sete anos e meio. A igreja de Cem Soldos era engalanada com colchas e verduras. Geralmente o dia escolhido era o de Corpo de Deus, em maio ou junho. Com aquela idade já via na sua figura um homem forte, alto e considerava-o muito bem-parecido.
Era originário do concelho de Torres Novas, de uma povoação que se chama Ribeira Branca.
Este padre, ao contrário do que se passava na época, entrou para o seminário já depois de ser maior de idade. O pai era contra a vocação do filho e para a contrariar mandou-o para Lisboa empregado numa mercearia – marçano – como se designavam estes rapazolas que entregavam as encomendas nas moradas dos fregueses.
Era um padre pobre, não tinha transporte próprio. Deslocava-se nas duas freguesias montado num cavalito que o médico Dr. Henrique Gonçalves, morador e proprietário da sua quinta em Cem Soldos, pôs à sua disposição quando da chegada à freguesia.
Nunca passava pelo mais humilde e pobre paroquiano sem lhe dar a salvação.
O Padre Nicolau era uma pessoa que não pedia nada de material aos paroquianos. Ele tinha direito a receber daqueles modestas quantias (estipêndio) para se manter economicamente, mas só pedia a cada família por ano o equivalente à jorna de um trabalhador rural. Quando era a visita pascal o Patriarcado de Lisboa não o dispensava de calcorrear as povoações e casalejos das duas freguesias. Mas acontecia por vezes receber numa família cinco escudos e na porta a seguir, em vez de receber, deixar a moeda que tinha recebido.
Era uma pessoa culta que ansiava recolher-se a uma comunidade onde pudesse dedicar-se aos estudos.
Paroquiou quase quarenta anos estas duas freguesias, deixou saudades a muitos, mas as pessoas que não estavam ao alcance das suas homilias não o recordam como ele merecia.
Até ao Concílio Vaticano II as celebrações eram todas em latim, grande parte do povo rural que frequentava a igreja saía da missa sem saber o que o celebrante falara.
O Padre Nicolau quando começava a homilia falava qualquer coisa do Evangelho mas havia sempre qualquer facto passado que o tirava do Evangelho do dia. Enervava-se, gesticulava e por vezes excedia-se em assuntos que o povo não gostava.
Ora o resto das povoações das duas freguesias não tinham paroquianos com quem o reverendo Prior cavaqueasse ao seu nível. Quando ele passava por Porto da Lage detinha-se alguns minutos com o Dr. Henrique Mota, médico, ou na farmácia.
A farmácia de Porto da Lage era um ponto de encontro. Uma ocasião nos anos 50 e pouco chega lá o Prior Nicolau e o dono da farmácia sr. Oliveira estava muito constipado. O Prior comenta:
- Parece impossível, o dono da farmácia estar assim tão constipado.
- Pois é, sr. Prior, parece impossível como é que também vão padres para o inferno.
Em Cem Soldos havia casas de Senhores com quem se dava, o professor, o advogado, todos parentes. O Dr. Libério Mourão tinha um filho engenheiro, o professor Mário Mourão era viúvo pai de três senhoras e um rapaz que frequentou o seminário quase até ao fim do curso. Deixou o seminário e casou com uma senhora que era professora do ensino primário. O Dr. Henrique Gonçalves era o médico dos pobres, natural das Moreiras Grandes casou com uma senhora de Cem Soldos. Foram pais de oito filhos. Dois médicos, um engenheiro, o qual nasceu quando da chegada do padre Nicolau em 1933 e foi afilhado do prior. As senhoras estudaram em Coimbra e penso que se formaram em assistentes sociais.
Não convivia o dia-a-dia em Cem Soldos mas as poucas vezes que passei umas horas a ouvir as conversas do Prior Nicolau todas as pessoas estavam animadas. Crentes ou não crentes, todos o respeitavam.
Hoje quando passo à porta da residência paroquial sinto sempre a falta daquela pessoa com a sua batina preta, ar sisudo, a olhar por cima dos óculos bifocais, careca com um resto de cabelo mais branco que preto, não era magro, antes senhor de uma grande barriga. Gostava muito q o visitassem, tinha sempre a porta da entrada para o escritório aberta para quem quisesse entrar.(Dulcinda Mota Teixeira)                                                           
                                                                                                         (continua)

22 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades *

                                                                  Anita do Lagar



Ana de Jesus Motta (Anita do Lagar) com duas filhas e uma neta, à porta de casa.
                                                 

As minhas irmãs mais velhas, quando da inauguração do Grémio em 1933 eram jovens. Entre primos e não primos seriam talvez uns quinze rapazes e doze ou treze raparigas na época. Os mais velhos à volta dos 25 anos e os mais novos com 14 ou 15 anos. A grande loucura eram os bailaricos. De vez em quando juntavam-se e lá iam dançar.
Acontece que num belo e célebre dia de Ano Novo ou de Reis, era dia Santo, talvez em 1937 ou 1938, sei que fui testemunha, as cinco filhas da minha mãe, a mais velha com 17 ou 18 anos e eu com 5 ou 6 anos, fomos ao princípio da tarde à capela de S.ta Margarida participar num ritual religioso – Beijar o Menino Jesus.
Acabou a devoção e lá viemos ladeira abaixo a caminho de casa. Morávamos na casa da empresa, em frente ao açude. Quando atravessou a ponte sobre a ribeira, o rancho Teixeira parou em frente à casa dos primos Tomaz e à casa da tia Florência que tinha uma filha jovem mas um pouco oprimida pela família.
Essa prima estava à janela e deu-nos conhecimento que havia ajuntamento no Grémio. Ora as minhas irmãs, calculando que os namorados deviam lá estar, não resistiram e levam com elas as irmãs mais novas.
A minha mãe, a “Anita do Lagar”, tinha relógio em casa, era tarde de Inverno, entendeu que já era tempo de as filhas chegarem a casa. Nem pensou nos prós nem nos contras. Vem estrada fora. A primeira pessoa que encontrou foi a tal menina que estava à janela. Logo pediu informações:
- Viste as minhas filhas?
- Oh prima, as suas filhas foram todas para o Grémio! – respondeu maldosa.
Aí vai a prima Anita do Lagar de vara na mão. Entra a porta da sala do Grémio precisamente quando a música da grafonola começa a tocar e os pares de namorados davam os primeiros passos de dança.
Por motivos de força maior parou a música, parou o baile e lá vêm escada abaixo (1.º andar bem alto) as cinco Teixeiras à frente da mãe. Parece-me que a vara não funcionou mas a façanha nunca foi esquecida.
O meu pai é que não gostou nada da ação da sua esposa.
A minha mãe tinha pavor a bailaricos e namorados das filhas à porta. Todos os que por lá passaram ficaram com poucas recordações agradáveis. Esta estória do baile passou-se já lá vão 75 anos.(Dulcinda Mota Teixeira)**

* Expressão utilizada por Dulcinda Teixeira num texto que havemos de ler um dia destes.
** D.M.T escreve de acordo com  o novo AO (de facto não há bela sem senão).

20 de agosto de 2013

E no entanto ela vive!




Pois parece que afinal PL ainda não deu o último suspiro! Fico feliz, penso que ficamos todos! Sub-repticiamente, direi mesmo que subterraneamente, apercebemo-nos que o silêncio da rua bordejada pelos habituais automóveis estacionados (ainda um dia averiguarei a razão de tanto carro numa terra sem gente), as fachadas arruinadas e as janelas cerradas, ocultam frustradas tentativas progressistas e guerras intestinas que, não sendo embora sintomas risonhos mostram que o doente respira, deprimido mas respira.

Fotografia retirada da net
Descobri aqui  o motivo. Acho que percebi bem do que li: um grupo de pessoas, sócias e amigas da Associação (?), segundo dizem, querem revitalizar a dita que, também segundo dizem, está fechada há ano e meio (o período de tempo não sei precisar, mas sou testemunha do desarrumo que impera desde a última iniciativa ao ar livre que me obrigou a ter que dar um jeito no caos fim-de-festa que ninguém limpou, se quis  ter acesso a uma propriedade minha) não tendo tido, da parte de quem tem a chave, receptividade para lhes passar o testemunho, isto é, a dita chave. Acha o grupo que, uma vez que quem a tem (a chave) mantém as instalações fechadas e não promove iniciativas, então que a passe a quem lhe dê uso.

Confesso que não deixa de me parecer bizarra esta dança das chaves: trabalhas tens a chave, não trabalhas dá cá a chave. Será que foi sempre assim que funcionou a transferência de dirigentes  ao longo dos anos? Se foi, afigura-se que deixou de o ser pois os actuais detentores não querem dar a mão, perdão a chave, aos pretendentes.
Parece-me bem, eu cá também não dava.
Não me parece bem que se dê uma coisa que não é nossa.
Não me parece bem que, quando não  apetece fazer uma coisa, ou não se pode ou não se quer, não se deixe os outros fazerem, se quiserem, se lhes apetece e se têm uma vontade irreprimível. Sobretudo se essa  coisa é, em principio, para o bem público e decorre num local que não é   propriedade particular.
Finalmente, parecia bem a toda a gente sensata que se fizesse o que estipulam as regras, a instituição há-de ter estatutos ou,  não os tendo, a Lei geral determina procedimentos a adoptar nestas circunstâncias.
A resolução será facílima comparada  com o ridículo e a aparente mesquinhez da situação. Promover uma  assembleia geral de sócios honra a história da colectividade, agrega pessoas,  contribuí para manter a terra viva.
O provável sucessor não é do agrado de quem sai? Temos pena! Como dizia o outro, ainda não se arranjou nada melhor que a democracia!
Declaração de interesses (eu andava doida para usar esta expressão que está agora muito na moda): não sei quem são as pessoas que constituem os órgãos que “têm a chave” assim como não conheço  “aqueles que a pretendem”, mas quero muito que Porto da Lage tenha presente.(MFM)

14 de julho de 2013

No ciclo eterno das mudáveis coisas




No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me fiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.


 Ricardo Reis