11 de novembro de 2018

Dia do Armistício na Nossa Terra



Apesar de Tomar ter contribuído com grande número de homens para a guerra, através dos habitantes do concelho e do Regimento de infantaria aqui aquartelado, dizem-me que a Câmara Municipal de Tomar não levou a cabo qualquer iniciativa para os homenagear, nem tão pouco se associou às realizadas a nível nacional. A ser assim, é pena.
 Não tenho antepassados directos intervenientes nesta tragédia. A sua faixa etária encontrava-se acima e abaixo daquela que se viu obrigada a caminhar para a França e Flandres. Mas também na minha família as memórias da partida, das saudades, da angústia da falta de notícias, faziam parte do nosso património de lembranças, através de um sobrinho e afilhado do meu bisavô que partira logo com o primeiro contingente e só regressara (mas regressara!) quando tudo acabara. No espólio da minha avó encontrei correspondência entre o primo Raul e a família. Fui agora à procura dele nos boletins do CEP  e lá estava o segundo-sargento Raul do Coito que embarcou em Lisboa em 16 de Maio de 1917 e desembarcou na mesma cidade em 28 de Fevereiro de 1919. Quase dois anos de prova cujas reminiscências lhe devem ter alimentado o resto da vida.
Aqui deixo o boletim militar e dois cartões enviados à família, de um tomarense na Grande Guerra. Num deles manda a sua fotografia que considera fraca mas  "não lhe ser fácil adquirir coisa melhor" por ali, no outro, confessa à prima a quem escreve, estar "sempre ansioso pelas notícias da nossa terra".
É o contributo deste blog para o homenagear, como símbolo dos milhares que o acompanharam. Mas  é pouco, não chega, ele, e os outros, mereciam mais "da nossa terra".(MFM)













                                         
Verso da Fotografia







Verso da ilustração acima

Dia do Armistício


Comemora-se hoje o centenário do Dia do Armistício . Em Paris concentram-se hoje os grandes do mundo para comemorar a paz conseguida há cem anos na chamada Grande Guerra. Guerra que se alastrou por quatro longos anos, na qual Portugal só interveio no último ano, na Europa, mas foi o bastante, tal a tragédia que daí adveio, deixando marcas bem vincadas na maioria das famílias portuguesas.

Mas à 11.ª hora do 11.º dia do 11.º mês do ano de 1918 a Guerra acabou. E o mundo entrou num delírio de alegria, incluindo Lisboa, veja-se como:





A Ilustração Portuguesa de 18 de Dezembro de 1918

26 de outubro de 2018

S.Braz ou S.Paulo



Já agora, que estou em maré de descortinar (palavra que veio engrandecer ultimamente o nosso tão empobrecido léxico por razões militares localizadas muito próximo de Tomar) os desconsertos  da minha terra, cá vai mais um. E este em homenagem à minha avó Maria José, criatura anónima, séria, muito rigorosa, que lia tudo o que lhe aparecia à frente e tinha gosto em preservar memórias, coisas, e ... mais nada que vos interesse, era minha avó pronto, e eu aqui homenageio quem me apetece.
Pois essa minha avó, proprietária da edição original de Noticia descriptiva e histórica da cidade Thomar, de J.M.Sousa, sublinhou a lápis (porque o considerou muito importante, que ela não era pessoa para conspurcar um livro) as duas últimas linhas da pag. 66 e as cinco primeiras da página seguinte, desta forma:




E legendando a lápis, como se pode ver, ao cimo da segunda página " Estas casas a que se referem estas linhas sublinhadas pertencem a meu pae José do Coito (o pae deve-se à redacção ter acontecido antes do acordo de 1945, pois, para esta avó, erro ortográfico não era erro, era crime!).

As linhas em causa dizem textualmente, referindo-se a hospitais e albergues que viriam a integrar a confraria da Misericórdia instituída em 1510, "....tais como o de S.Braz, ao cimo da Rua da Graça, logo à entrada da villa para quem vinha pela estrada de Lisboa, cujas casas foram para esse fim deixadas em testamento por Constança Annes e que depois foram aforadas por 190 réis annuais e um frangão ou dez réis por ele, sendo feita a escritura no cartório do escrivão Gaspar Garro em 26 de abril de 1561."

E J.M.Sousa continua " O mesmo aconteceu com o hospital de S.Paulo, que ficava próximo a este, para o lado do Pé da Costa, em uma casa que ainda lá existe, com uma escada por fora uma varanda, a qual foi também aforada em 1561 a Simão Duarte, pedreiro, e passou depois para ....."

Da leitura destas linhas entende-se que o hospital de S.Braz ficava ao cimo da Rua da Graça, logo à entrada da villa para quem vinha pela estrada de Lisboa (a estrada de Lisboa, segundo J.M.Sousa passava em frente do Convento de S.Francisco e "vinha entrar na villa ao cimo da Rua da Graça", pag. 58 da obra citada), enquanto o hospital de S.Paulo, que ficava próximo a este, para o lado do Pé da Costa, em uma casa que ainda lá existe, com uma escada por fora uma varanda.

Afigura-se-me, portanto, não ser abusivo concluir, tal como a minha avó fez, que o hospital de S.Braz seria o que ficava ao cimo da rua da Graça e o de S.Paulo o que ficava para o lado do Pé da Costa, com uma escada por fora uma varanda.em uma casa que, felizmente e como a figura mostra,  ainda lá está.

"...o hospital de S.Paulo, que ficava para o lado do Pé da Costa, em uma casa que
 ainda lá existe, com uma  escada por fora uma varanda..."

Ora, não é isto que é divulgado nos roteiros turísticos e nos livros  recentes, sobre Tomar. O edifício da  imagem aparece sempre denominado como "Antigo hospital de S.Braz". Calculo que a origem deste engano (?) estará no livro "História de Tomar" de Amorim Rosa, o qual afirma (pag.87) que das gafarias e hospitais que se juntaram no tempo do Infante D.Henrique para fazer o hospital de Nossa Senhora da Graça constava o Hospital de S.Braz que dizem que estava na rua da Graça, e que, a seguir, na legenda do desenho desta casa (pag.88) refere "o antigo hospital de S.Braz, entre as Ruas de Pé da Costa de Cima e Rua da Graça, onde outrora findava a Várzea Grande". Se a Várzea Grande (vinda do lado esquerdo) terminava na rua da Graça, o referido hospital só podia ser o citado por J.M.Sousa. Não se percebe em que se fundamenta Amorim Rosa para dizer que o antigo hospital se situava entre as Ruas de Pé da Costa de Cima e Rua da Graça. A localização da casa da imagem pouco tem a ver com a Rua da Graça, se olharmos para a fotografia abaixo,  tirada antes do arranjo do largo da Cerca e do derrube de algumas casas, vimos que o edifício fica recuado em relação ao traçado que a rua da Graça tinha então e, aliás tem ainda, pois aquele fica situada no largo, não na rua referida. Concluindo, tanto J.M.Sousa como Amorim Rosa concordam que o Hospital de  S.Braz se localizava na Rua da Graça, só que este último, por um raciocínio confuso e que não fundamenta, entende que o hospital de S.Braz é o da figura, enquanto J.M.Sousa acha que é o outro, e ao da figura chama de S.Paulo. Não estou em condições de dizer qual dos dois tem razão, embora as apresentadas pelo avô (J.M.Sousa era avô de Amorim Rosa) me pareçam mais consistentes que as do neto. De qualquer forma, parece-me, pelo menos, haver motivos para dúvidas e, parece-me também, pelos dados expostos por ambos que bastará ir às fontes ver outra vez, e atribuir o nome correcto à casa, ou então, seria avisado que entidades com responsabilidades na historiografia se abstivessem de patrocinar declarações polémicas como esta. (MFM)


A casa em questão, antes das obras da Cerca.








                               

Estas duas imagens (recortes de fotografias separadas) -imaginem-nas coladas-
foi o que consegui arranjar sobre a antiga casa a que a minha avó se refere e que
representariam, essas sim, o hospital de S.Braz, segundo J.M.Sousa.





Os edifícios localizados no mesmo local, agora.

E até um dia destes ....

24 de outubro de 2018

Casa dos Tectos







Tenho observado por aí, em folhetos turísticos em papel e na net, de que é exemplo este  site,   a casa dos tectos referida como um palácio do século XVII, afirmação que é tão mais curiosa  quando, no caso do site citado, dois parágrafos antes, se diz que o edifício no qual está instalado o Turismo " não é bem aquilo que parece" , pois, explicam "à primeira vista, olhando para os seus portais e janelas, parece-nos uma construção muito antiga, mas o edifício data apenas de 1940", o que significa que quem o diz sabe a diferença entre o que é verdadeiro e uma imitação! Eu quero querer que a informação de se catalogar como seiscentista a casa dos tectos decorre da ignorância e não do propósito de enganar turista, o que seria um crime, sendo que a ignorância, não o sendo, é, neste caso, pouco compreensível, tanto mais que, circulam pelo mesmo site, em roda-pé, alusões ao Instituto Politécnico de Tomar, ao Ministério da Cultura, IGESPAR, etc., entidades que, tanto quanto parece ao visitante desprevenido, devem ter alguma responsabilidade no que dizem e fazem e, portanto,  no que por ali aparece escrito (no site). Além de pouco compreensível, dizia eu, a ignorância é atentatória, já não digo da inteligência mas, pelo menos, da memória dos tomarenses! Não é preciso estar morto, é só preciso ter mais de cinquenta anos, para ter acompanhado o chamado palácio a “vestir-se” à sec.XVII!
Qualquer pessoa que tenha passado nos anos setenta ao cimo da Rua da Graça (eu sei que se chama Cândido Madureira, mas também sei que os tomarenses sabem ao que me refiro) lembram-se  não só de ver as eternas obras que serviriam para pintar os famigerados tectos, como de ouvir o “cântico” de uma oficina de cantoneiros, situada mesmo em frente do dito palácio, que trabalhou e trabalhou, durante anos e anos, para aparelhar a pedra (ao contrário da cantaria da casa do turismo que é, de facto, de outras épocas, esta foi “construída” de propósito) que veio a servir para decorar a fachada de uma casa, grande, é verdade, do tamanho, altura, comprimento, largura e com o mesmo número de janelas daquela que lá está, mas com uma fachada simples, com janelas de vidrinhos, ao gosto dos burgueses abastados do fim do sec.XIX,. Não será difícil saber a data exacta da construção da casa para quem quiser ser sério naquilo que vende a turistas, bastará procurar nos arquivos da Câmara, pois pertence a uma época relativamente recente, pouco mais de cem anos, em que tudo obedecia a licenças que estarão devidamente arquivadas.
Mas eu não venho dizer isto para corrigir ninguém nem, tão pouco, para educar os meus conterrâneos, há muito já, que perdi as ilusões da possibilidade de ensinar quem não quer. Eu não detenho verdade de tipo nenhum e a minha memória não é mais privilegiada do que a dos meus contemporâneos, sei tanto como eles e se estes ficam calados não será, com certeza, por burrice ou preguiça, é por terem chegado à mesma conclusão que eu.
A razão porque falo é porque ainda não abdiquei  de me lembrar -  e fazer pública essa memória – das pessoas.
A casa dos tectos ser ou não é do sec. XVII pouco me interessa, interessa-me sim, ser a obra de alguém que a idealizou. O sonho, ou a obsessão, de um homem cuja vida Camilo não desdenharia escrever. Conheci Augusto Gonçalves, que a Fortuna (a deusa e  aquilo com que prosaicamente identificamos a palavra) escolheu, era da criação do meu pai, do mesmo ano, vizinho de rua, colégio, tropa. A família materna do meu pai conhecia-lhe a tragédia do nascimento, embora, curiosamente, se tornasse filho adoptivo de um primo do meu avô paterno. Não sei se a a realização da obra chegou para o fazer feliz, mas quer o tenha ou não sido, sobretudo se o não foi, merecia, da posteridade, o reconhecimento por ser um de nós que, como diz o poeta, ouviu  Deus, sonhou e fez nascer a obra. Que existe, tem o seu valor artístico, utilidade, mas não faz referência ao seu autor (porque a criatura ultrapassou o criador?)! Tenho muita pena, porque não se homenageia quem se deve e, já agora, embora eu não tenha nada com isso, porque se segue a via mais fácil, mesmo economicamente, preferindo-se enveredar pela aldrabice, facilmente detectável, em vez de, dizendo a verdade, contar a historia de um homem e do seu sonho, como se faz noutros   lados, igualmente com edifícios revivalistas, e com bons proveitos. (MFM)


A casa mencionada, à esquerda a seguir ao Turismo, antes da intervenção na fachada.

22 de outubro de 2018

Roteiro Terrestre de Portugal



      João Baptista de Castro   é o autor da obra  Roteiro Terrestre de Portugal (1748)"em que se ensinão por jornadas e summarios não só os caminhos, e as distancias, que ha de Lisboa para as principaes terras das provincias deste reino, mas as derrotas por travessia de humas a outras povoações delle, ..." (sic)

Nesta conformidade, somos ensinados, entre muitas outras, das derrotas entre Lisboa e Tomar, em que, pela peyor estrada, das duas alternativas apresentadas, via Pernes, se ia de Paialvo a Tomar, parecendo-me que, neste caso, a estrada iria pelo Marmeleiro e não passaria por Porto da Lage.


 Capítulo e parágrafos retirados da obra citada


Já no Roteiro de Santarém para Coimbra, por outro caminho, de Santarém à Golegã, temos a certeza que entre Payalvo e Chaõ de maçãs se encontrava, pela estrada real,  antes da igreja de S. Silvestre (diz-nos o padre António Carvalho da Costa, 1712 - ver abaixo) a estalagem de Porto da Lage.


 Parágrafo retirado da obra citada


Extracto do mapa da Estremadura constante da obra assinalada.


Padre António Carvalho da Costa Corografia Portuguesa, etc. Tomo III, pag.174 (extracto)



19 de outubro de 2018

Nabantina e Gualdim Pais





« .... Ficou existindo sempre uma velha rivalidade entre a população das duas margens, facto que se justificaria aqui bastantemente por uma natural emulação entre o passado e o presente, mas que aliás é vulgar em outras cidades e villas.
...
Os thomarenses designam os habitantes de Além da Ponte pelo epitheto irónico de «hespanhoes» e ao bairro d'aquella margem dá o povo da cidade o nome de Hespanha, desdenhosamente. N'outro tempo a rivalidade era mais viva e fasanhuda. Havia frequentes conflictos, tiroteio de impropérios e  de pedradas.
Hoje ainda se armam alguns motins nocturnos, por causa das raparigas que trabalham na Real Fabrica de Fiação, situada na margem esquerda, e por causa do antagonismo das philarmonicas.
As operarias, que são das aldeias próximas, pernoitam durante a semana em Além da Ponte e só ao domingo vão a casa.
Rapazes da margem esquerda e rapazes da margem direita requestam-nas á porfia. D'esta concorrência amorosa resultam altercações, pugilatos, "pancadaria".
Os hespanhoes teem a sua philarmonica, que se intitula «Gualdim Paes».Os thomarenses teem outra philarmonica, que se chama «Nabantina». Custa-me não poder dizer, para evitar a pornographia, a designação popular de uma e outra philarmonica.
Quando os músicos da «Gualdim Paes» ou da «Nabantina» estão fardados, acham-se sempre em occasião próxima de se desfeitearem uns aos outros. O uniforme dá-lhes bravura.
Ha annos, encontrando-se as duas philarmonicas em uma festa na freguezia de S. Miguel de Carregueiros, pegaram-se uma com a outra e quem salvou a situação foi uma mulher de Thomar, que varreu a feira, pondo em debandada os bravos antagonistas. Esta mulher ainda hoje vive. Chamam-lhe, e com razão, «Padeira de Aljubarrota».
Fora da formatura, despida a farda, a rivalidade afroixa. Há rapazes de «Além da Ponte» que fazem parte da Philarmonica Nabantina, e rapazes da cidade alistados na Philarmonica Gualdim Paes..

(Alberto Pimentel, "Portugal Pittoresco e Illustrado, A Extremadura Portuguesa, Primeira Parte, O Ribatejo", pag. 423 a 452,. Empreza da História de Portugal, Lisboa, 1908



Assim descrevia em 1904, Alberto Pimentel, as relações, entre as gentes das duas margens do rio, em Tomar, e entre os músicos das duas filarmónicas: A Nabantina e a Gualdim Pais. Quem não se lembra de as ver desfilar debaixo de girândolas e foguetes no largo da estação de Paialvo a acolher personalidades, ou nas saudosas marches aux flambaux  ao cair do luar, aqui, neste blog, no final do sec.XIX ? Pois, elas são já centenárias, a Nabantina desde 1874, a Gualdim Pais sucessora da "Thomarense" desde 1877!

Nem na minha geração, nem sequer na de meus pais, se verificavam já episódios como os descritos. Mas lembro-me de ouvir falar neles aos velhos do meu tempo, como coisas de velhos dos tempos deles. Ainda os ouvi dizer, como graça, "para Espanha só depois de morto" (porque, diga-se para quem não é tomarense, em "espanha" se localizava o cemitério), quando já era "bem" e moderno morar-se em "além da ponte" e a cidade ameaçava estender-se maioritariamente para aquele lado, como depois se concretizou e com tal intensidade que a outra margem definha e quase morre, não fora o ter-se tornado numa montra de pechisbeque para turistas! Um fim de vida muito, muito triste. Pelo menos para mim!
Quanto às duas bandas, a coisa passava-se como o autor conta. As minhas duas avós, cada uma delas moradora na sua margem do rio, uma no Alto do Pissarra, a outra na Rua Larga (de além da ponte) depois republicanamente crismada de Marquês de Pombal, as duas circulavam sem qualquer obstáculo entre os bailes das duas colectividades. A avó materna, descendente de comerciantes e artífices, de além da ponte,  associados da Gualdim Pais, casou-se com um homem da Nabantina, e todos os homens da família, mesmo os da família dela, passaram a ser músicos desta última. A cidade era só uma, e as rivalidades das filarmónicas era um assunto lá delas, e, justamente, só quando estavam fardados!
Talvez por o meu avô ter sido dirigente da Nabantina (ainda lá continua, na galeria de retratos, no seu quadro de esquadria à banda, sempre me lembro de olhar e ter vontade de o ir endireitar, não fosse a altura que mo impede) a minha mãe, em 1974, esteve presente na cerimónia de celebração do centenário e eu acompanhei-a.
Foi uma cerimónia como tantas, com discursos, comoções, brincadeiras e banda a tocar solenemente,  num salão a transbordar de gente, já não me lembro bem da cronologia. Sei que, a dado momento, estavam sentados, na mesa de honra, entre outros, o dr. Fernando (Nini) Ferreira e o dr.  Manuel Guimarães que apresentava um livro do primeiro, sobre precisamente a homenageada, intitulado "Anais da Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina."




Depois das palavras da ordem sobre o autor e a obra, Manuel Guimarães termina anunciando que há meia dúzia de exemplares do livro, autografado pelo autor,  para oferecer. Seria contemplado quem fizesse  as melhores quadras, que teriam que conter obrigatoriamente o verso "e a Nabantina a tocar", e toda a assistência foi convidada  a concorrer.
Imediatamente, começa uma batalha verbal, sussurada, entre mãe (a minha) e filha, para que eu produzisse uma quadra, "coisa simples", "que não me custaria nada" pois, era garantido para a progenitora, " que íamos ganhar o livro", assim aparecesse a quadra.
Ora eu, que, hoje, concordo  com ela, não que a vitória estivesse certa, mas que não se estava a pedir nenhum poema, nenhuma obra de arte, mas apenas uma pequena graça que serviria para homenagear a Nabantina, não tinha, na época, nem idade nem cabeça, para alcançar essa leveza das coisas. Tudo era sério e tinha de ser perfeito. Fazer uma quadra? Eu não fazia quadras! Fazer qualquer coisa? Eu não fazia qualquer coisa, ou fazia ou não fazia! E, agarrada à arrogância da certeza e perfeição de tudo,  que é apanágio dos jovens, e dos  aborrecidos pior ainda, sim, porque eu era uma chata (em poucas coisas, é verdade, mas nessa era), mantive-me na minha. Mas a minha mãe tinha ainda a última cartada, e jogou, jogou aquela carta certeira que há-de existir sempre no baralho das mães, enquanto houver mães, a chantagem: - Muito bem, não fazes. Podíamos sair daqui com o livro. Era uma homenagem ao teu avô, que adorava a Nabantina e para quem seria um orgulho saber que a neta escrevera uma quadra sobre ela. Mas esse teu feitio de só fazeres o que queres e não pensares nos outros, só consegue dar desgostos a quem confia em ti!
E é preciso dizer o resultado? Lá levámos o livro para casa. (MFM)







                                 

17 de outubro de 2018

Coisas muito penosas




                                                             
Retirado de Malomil , o Blog que "Porto da Lage" gostaria de ser, quando for grande.

Criados que fomos, todos nós, os portugueses, a nos considerarmos os piores em tudo, e a sabermos que as piores coisas acontecem "só neste país" já devíamos ter esgotado toda a lista de culpas das desgraças e malfeitorias deste mundo no presente, passado e, sobretudo, no futuro, quando, mal nos precatamos, nos aparece uma nova. Descobrimos agora, não que traficámos escravos, que isso, caramba, até o Infante D.Henrique soube, ao assistir, em Lagos, aos gritos lancinantes das mães provenientes de Cabo Branco, ao serem  apartadas dos filhos (e até aprendíamos isto na escola, ah manuais ocultadores desprezíveis!), mas que ainda não tínhamos expiado convenientemente esse vil pecado pois, como filhos dilectos da santa inquisição, que muitos de nós são, foi escrupulosamente verificado que ainda não tínhamos sido postos a tratos, relaxados ao braço da justiça e sujeitos a autos de fé pelo motivo em causa, pelo que urge fazê-lo rapidamente.

Por isso, à semelhança daquele santo tribunal, também agora se preparam outros, pelos quais esperamos para ser julgados. Os quais, como bons tribunais, precisam das formais provas e declarações!

Nessa conformidade, eu, na minha humildade, aqui junto uma. Prova inequívoca que no ano de 1620, reinando Felipe III de Espanha, havia escravos na freguesia da Madalena, termo de Tomar, Estremadura, Reino de Portugal. Para que, um dia destes, quando a auto-flagelação geral for promovida e compungidamente cumprida, não escape ninguém, e, todos, fregueses da Madalena incluídos, desfilemos, amargurados mas felizes, a cumprir a nossa eterna e irremissível pena pelo pecado de termos nascido portugueses. (MFM)




 Retirado daqui 




No mesmo dia, mês e era supra ( 6 de Setembro de 1620) baptisou o mesmo padre (padre frei Aleixo Fernandes, coadjutor) a Agostinho, filho de Francisco do Couto, solteiro e de Antónia, escrava de Pedro Álvares de Abreu, foram compadres Frutuoso Carvalho e Domingas Luís todos da quinta e desta freguesia da Madalena. Assina Frei Alexandre Bastos


Personagens em presença: 

- Pedro Alvares de Abreu, Senhor do Morgado e Quinta da Beselga (actualmente chamada vulgarmente Quinta de Cima) "que tomou o nome desta ribeira que passa junto dela nesta freguesia de Santa Maria  Madalena", conforme é referido na pag.175 do tomo III da obra "da Corografia Portuguesa", que também nos conta que aquele era filho de António de Abreu, fidalgo da casa real, cavaleiro de Cristo, Capitão Mor das Naus das Índias (em quem falam as Décadas de João de Barros) e padroeiro do Convento de Santa Cita de Religiosos Recoletos da Ordem de S.Francisco. Ao descendente desta família atribuiu o  rei D. Luís, em 1864, o título de "Conde de Nova Goa". A quinta ainda está na posse desta família. Acusada de descendentes de esclavagistas!

- O pequeno Agostinho, o pai Francisco do Couto (homem livre, de contrário seria referido) e a escrava Antónia: deles nada sabemos, terão sobrevivido, tido descendência, que andará por aí, nossa contemporânea, anónima,  acusada de descendentes de esclavagistas.




Nota:  Em 1761 o Marquês de Pombal proibiu a entrada de novos escravos em Portugal Continental, parece que estavam a fazer falta noutros territórios do império português onde a necessidade da sua força de trabalho se fazia mais sentir ! É aquela a data anunciada como o "fim" da escravatura em Portugal, e por isso este se considera o primeiro país do mundo a fazê-lo. As razões não foram bonitas mas ...melhor que nada.

Esta questão, do grande boom de escravos e do consequente decréscimo - do sec. XVII até meados do sec. XVIII- é notória nos registos paroquiais de Santa Maria dos Olivais,Tomar (até agora encontrei cerca de oitenta assentos, alguns de "pretos livres"), sendo os seus proprietários, maioritariamente a Ordem de Cristo e o clero da vila, além de algumas pessoas de "algo" e também  artífices possuíssem escravos (a origem social não era determinante, desde que houvesse dinheiro...).

Nos nossos dias calcula-se que haja 40 milhões de seres humanos vítimas de escravatura , isto sim, deve merecer toda a nossa revolta e envidar todos os esforços para acabar com este crime abjecto, porque vale a pena lutar quando ainda vamos a tempo!

15 de outubro de 2018

Nome de rua








- Ah, como a rua - observou o homem enquanto escrevia o meu nome.
Foi a primeira vez, em toda a minha vida, em Porto da Lage, que alguém reagiu assim (e era raro não reagirem) perante o meu sobrenome. Se a Ciência se preocupasse com isto chamar-lhe-ia mudança de paradigma, e alguns pedantes também. Eu e o resto das pessoas comuns chamamos-lhe "passagem do tempo" que leva  vidas e as memórias com elas. Permanece o escrito na pedra. (MFM)

12 de outubro de 2018

Mais viajantes por Paialvo


















A obra LISBON & Cintra / Illustrated by Stanley Inchbold. London: Chatto & Windus, 1907 é um livro  de viagens que dedica grande parte da sua descrição a Lisboa e Sintra,embora percorra também outras cidades e vilas portuguesas como Évora, Santarem, Coimbra, Porto, Braga, Tomar e outras, fazendo váriadas  incursões sobre o legado e personalidades históricas de Portugal. Apesar de o título fazer apenas referência ao autor das ilustrações, talvez por ser alguém consagrado na sua arte, não deixa de ter valor o texto,  da autoria de sua mulher A.Cunnick Inchbold (MFM).




10 de outubro de 2018

A Diligência










                     









        Tojos e Rosmaninhos, Contos da Serra (cap.II). Alfredo Keil, A Editora, Lisboa, , 1907

NOTAS DO TEXTO:
1) Valles-região comprehendida entre Ferreira do Zêzere, Payo Mendes, Valle Serrão, Besteiros, etc.. No lugar designado Besteira de Cima, junto à estrada, é que se faz a muda do gado à diligência que vem de Tomar e segue para a Certã, existe também uma pousada onde os passageiros encontram agradável conforto. 
2) Manganaz- Alcunha do engatador da Companhia de Viação Thomarense.

Para verificar o estado actual dos locais referidos, consultar aqui e aqui 

8 de outubro de 2018

O Guia Oficial e o Serviço de Diligências directamente de Paialvo



Retirado também da entrada da Wikipédia que já aqui referi, foi este Guia Oficial dos Caminhos de Ferro de Portugal, de Outubro de 1913. Na única publicação autorizada pelas direções, pela módica quantia de 60 réis, obtinham-se 162 páginas repletas de toda a informação nacional e internacional (ah pois! quer ir a Londres a negócios, a Nice "vivre la vie", directamente, com todo o conforto? dizemos-lhe como) sobre linhas de comboios, horários, preços, tudo o que podia interessar a um viajante da época e que agora faz vibrar um amante destas coisas. O que, sempre vou adiantando porque tenho muito medo de ser mal-entendida, não é o meu caso. A bem do rigor histórico que desejo que impere em Porto da Lage (nos dois, blog e localidade) lá vou pesquisando sobre estações e comboios, mas q.b. com o sofrível imprescindível interesse, pois, tenho que confessar que, quer umas quer outros (embora me encante toda a iconografia associada, e a infantil sobremaneira) não são propriamente "a praia" das minhas paixões e o meu conhecimento sobre eles é muito diminuto.
Parêntesis feitos, adianto que o "Guia Oficial", acho eu, só por si, é capaz de contemplar todos os gostos e de animar quem o folheia, por diversos motivos, entre eles aquele que aqui nos trás .







Pois imaginem que, em 1913, e sem recurso, por exemplo, ao mappy, um dos meus leitores, morador em Porto da Lage, queria sair de sua casa, apanhar o comboio e dirigir-se, quem sabe, vamos lá ver, à Rua. Perfeitamente natural, nada do outro mundo, querer-se ir a Rua, tem-se lá amigos, parentes, negócios. Mas como? Muito simples, consulta-se o "Guia Oficial", procura-se Rua no Serviço de Diligências, fácil, vai-se ao "r" , está por ordem alfabética. Lá está: Rua. Pronto, fica a saber que só tem que  tirar um bilhete para Celorico, na sua estação e meter-se no comboio. Lá chegado (os entretantos também se consultam no "Guia" mas, por favor poupem-me, eu já contei das minhas fraquezas, os senhores farão o favor de ir ver de horários, linhas, transbordos e demais incómodos necessários), lá chegado, dizia eu, bastará tomar a diligência, que vos esperará no horário da chegada do comboio, quase garanto, apesar de se estar avisado da impossibilidade da precisão do mesmo, há-de ser assim, de outra forma para que servirá a diligência? será o lógico, ou então este é uma batata (andava ansiosa para pôr isto em qualquer lado- saudades da juventude sabem? dizia-se assim quando eu era jovem, que já foi depois de 1913, mas não tanto, por isso não sei se ainda se usa).





                                        









De igual modo, quem queria dirigir-se a Certã, Cercal, Maçãs de D.Maria, Cernache do Bonjardim, Valles (caso de Alfredo Keil, anteriormente, pois morreu em 1907), Águas de Todo o Ano, etc, proveniente de  qualquer local do país, ou da Europa, só tinha que vir de comboio até Paialvo e aqui apanhar a sua diligência.

Voltando ao nosso Guia Oficial o que nele atrai, mal o folheamos, é todo o apelo ao prazer, à distracção, ao cosmopolitismo, a uma boa vida, enfim. O que não é de estranhar. Trata-se de um guião com finalidade turística e lembremos-nos que se vivia então a Belle Epoque, quem podia vivia um clima intelectual e artístico novo com toda a promessa de inovações culturais, cientificas, de desenvolvimento, em particular dos meios de comunicação e transporte que aproximavam o mundo todoOs "Grande hotel" de cidades grandes, pequenas, das termas, sucedem-se, os "vapores" partem semanalmente para todos os continentes, com os seus telégrafos instalados, " Os específicos de Henrique E.N.Santos" garantiam, com o Lindacutis, o Dermor e o Blenol, o tratamento das mais variadas maleitas e a "Casa Chineza" os melhores chás e cafés, que já não vende, é certo, mas está perdoada, porque, no ano da graça de N.S.J.C. de 2018, ainda lá continua, com o mesmo símbolo, em frente do Monte Pio, e com as melhores Brisas de ovos de Lisboa!(MFM)