Si hortum in biblioteca habes deerit nihil

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27 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades 2

                                                                          O Padre Nicolau                   (continuação)


Eu era garota quando um dia indo eu e uma rapariga a atravessar uma propriedade de meus pais – Casal Negro – o Prior passou por nós na sua montada. Deu os bons dias e perguntou-me:
- Olha lá, de quem é esta fazenda?
Eu, um pouco tímida respondi – É dos meus pais.
Vim a saber mais tarde que ele pensava que eu respondia – É minha!
Lembro-me que quando os jovens resolviam contrair matrimónio iam ao domingo à missa e procuravam o prior para dar início ao processo. Uma ocasião, talvez há setenta anos, um rapaz que pretendia casar foi ter com o prior. Às primeiras perguntas do questionário o padre percebeu que o pretendente ao casamento não estava sóbrio. Disse-lhe:
- Olhe sr. João, para a semana venha cá outra vez mas não vá à taberna do Cartaxo, venha primeiro falar comigo.
Aqui nesta região quando as mães tinham os bebés em casa eram acompanhadas por uma mulher curiosa que ajudava ao parto. Essa mulher é que por norma levava a criança ao colo à Igreja para batizar. Ia o pai, o padrinho, a madrinha e mais quem queria ir. Durante o batismo era sempre a parteira que segurava a criança. Ora tinha acontecido que em determinado batizado essa mesma senhora parteira tinha posto na boca de um bebé um pedacinho de coscorão (massa frita). O bebé engasgou-se. O Prior sabia da estória e quando estava a decorrer o ritual do batismo doutra criança o neófito começou a chorar e não se calava. O prior então lembrou-se do outro e disse:
- …se lhe dessem um bocadinho de coscorão ….?
Outra vez ouvi eu o Prior a comentar o estado em que uma noiva levava as unhas para o altar: “…parecia que tinha andado a cavar com as mãos antes de ir para a Igreja”.
Quando eu e o meu marido namorávamos, durante a colheita da azeitona o Manuel tirou uns dias de férias (na tropa) e veio à Fonte da Longra passar uns dias. Dirigiu-se ao olival onde o pai andava a ajudar a colheita. O Manuel teve o cuidado de por umas luvas para trabalhar melhor. O meu sogro era muito amigo do Prior. Sabendo o Prior que o amigo andava perto da povoação e vindo ele da capela de celebrar missa encaminhou-se para ir ao encontro do amigo. O Manuel quando percebeu que o prior ia ao encontro deles tirou logo as luvas. Mas mesmo assim o Prior viu as luvas a serem retiradas das mãos.
Passados dois ou três dias o prior passou por Porto da Lage e ao cruzar-se com uma prima minha que ia de luvas informou-a de que tinha passado a um olival e andava um homem a apanhar azeitona de luvas. Claro que nomeou quem era o homem. A minha prima assim que pode veio contar-me a estória das luvas.
O padre Nicolau não gostava de casamentos por procuração nem de casamentos com noivos demasiado jovens. Quando lhe aparecia um casamento por procuração em que a rapariga nem sequer conhecia o futuro marido punha todas as dificuldades.
Na época de 40 a 45 as saias das mulheres e raparigas usavam-se por cima do joelho, o prior não suportava tal moda. Na paróquia havia um pequeno ramo da Juventude Agrária Católica Feminina (JACF), quando o grupo se reunia para a celebração da eucaristia ou outras atividades, todas vestiam a saia azul escura e a blusa azul clara. Houve um ano em que a JACF quis festejar o dia do padroeiro S. Sebastião, o prior concordou que faria a festa mas com a condição que quem usava a saia curta teria que descer a bainha. Não sei se desceram, eu nessa época teria nove ou dez anos.(Dulcinda Mota Teixeira)                              

                                                                                       (continua)

26 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades 1

                                                                 O Padre Nicolau


O nosso saudoso Reverendo padre António Joaquim Nicolau chegou às freguesias da Madalena e Beselga no ano de 1933. Eu tinha nascido há poucos meses por tal razão só quando atingi os meus sete anos é que comecei a ter a imagem deste sacerdote. Quando fiz a minha primeira comunhão já tinha feito sete anos e meio. A igreja de Cem Soldos era engalanada com colchas e verduras. Geralmente o dia escolhido era o de Corpo de Deus, em maio ou junho. Com aquela idade já via na sua figura um homem forte, alto e considerava-o muito bem-parecido.
Era originário do concelho de Torres Novas, de uma povoação que se chama Ribeira Branca.
Este padre, ao contrário do que se passava na época, entrou para o seminário já depois de ser maior de idade. O pai era contra a vocação do filho e para a contrariar mandou-o para Lisboa empregado numa mercearia – marçano – como se designavam estes rapazolas que entregavam as encomendas nas moradas dos fregueses.
Era um padre pobre, não tinha transporte próprio. Deslocava-se nas duas freguesias montado num cavalito que o médico Dr. Henrique Gonçalves, morador e proprietário da sua quinta em Cem Soldos, pôs à sua disposição quando da chegada à freguesia.
Nunca passava pelo mais humilde e pobre paroquiano sem lhe dar a salvação.
O Padre Nicolau era uma pessoa que não pedia nada de material aos paroquianos. Ele tinha direito a receber daqueles modestas quantias (estipêndio) para se manter economicamente, mas só pedia a cada família por ano o equivalente à jorna de um trabalhador rural. Quando era a visita pascal o Patriarcado de Lisboa não o dispensava de calcorrear as povoações e casalejos das duas freguesias. Mas acontecia por vezes receber numa família cinco escudos e na porta a seguir, em vez de receber, deixar a moeda que tinha recebido.
Era uma pessoa culta que ansiava recolher-se a uma comunidade onde pudesse dedicar-se aos estudos.
Paroquiou quase quarenta anos estas duas freguesias, deixou saudades a muitos, mas as pessoas que não estavam ao alcance das suas homilias não o recordam como ele merecia.
Até ao Concílio Vaticano II as celebrações eram todas em latim, grande parte do povo rural que frequentava a igreja saía da missa sem saber o que o celebrante falara.
O Padre Nicolau quando começava a homilia falava qualquer coisa do Evangelho mas havia sempre qualquer facto passado que o tirava do Evangelho do dia. Enervava-se, gesticulava e por vezes excedia-se em assuntos que o povo não gostava.
Ora o resto das povoações das duas freguesias não tinham paroquianos com quem o reverendo Prior cavaqueasse ao seu nível. Quando ele passava por Porto da Lage detinha-se alguns minutos com o Dr. Henrique Mota, médico, ou na farmácia.
A farmácia de Porto da Lage era um ponto de encontro. Uma ocasião nos anos 50 e pouco chega lá o Prior Nicolau e o dono da farmácia sr. Oliveira estava muito constipado. O Prior comenta:
- Parece impossível, o dono da farmácia estar assim tão constipado.
- Pois é, sr. Prior, parece impossível como é que também vão padres para o inferno.
Em Cem Soldos havia casas de Senhores com quem se dava, o professor, o advogado, todos parentes. O Dr. Libério Mourão tinha um filho engenheiro, o professor Mário Mourão era viúvo pai de três senhoras e um rapaz que frequentou o seminário quase até ao fim do curso. Deixou o seminário e casou com uma senhora que era professora do ensino primário. O Dr. Henrique Gonçalves era o médico dos pobres, natural das Moreiras Grandes casou com uma senhora de Cem Soldos. Foram pais de oito filhos. Dois médicos, um engenheiro, o qual nasceu quando da chegada do padre Nicolau em 1933 e foi afilhado do prior. As senhoras estudaram em Coimbra e penso que se formaram em assistentes sociais.
Não convivia o dia-a-dia em Cem Soldos mas as poucas vezes que passei umas horas a ouvir as conversas do Prior Nicolau todas as pessoas estavam animadas. Crentes ou não crentes, todos o respeitavam.
Hoje quando passo à porta da residência paroquial sinto sempre a falta daquela pessoa com a sua batina preta, ar sisudo, a olhar por cima dos óculos bifocais, careca com um resto de cabelo mais branco que preto, não era magro, antes senhor de uma grande barriga. Gostava muito q o visitassem, tinha sempre a porta da entrada para o escritório aberta para quem quisesse entrar.(Dulcinda Mota Teixeira)                                                           
                                                                                                         (continua)

22 de agosto de 2013

Recordar é Matar Saudades *

                                                                  Anita do Lagar



Ana de Jesus Motta (Anita do Lagar) com duas filhas e uma neta, à porta de casa.
                                                 

As minhas irmãs mais velhas, quando da inauguração do Grémio em 1933 eram jovens. Entre primos e não primos seriam talvez uns quinze rapazes e doze ou treze raparigas na época. Os mais velhos à volta dos 25 anos e os mais novos com 14 ou 15 anos. A grande loucura eram os bailaricos. De vez em quando juntavam-se e lá iam dançar.
Acontece que num belo e célebre dia de Ano Novo ou de Reis, era dia Santo, talvez em 1937 ou 1938, sei que fui testemunha, as cinco filhas da minha mãe, a mais velha com 17 ou 18 anos e eu com 5 ou 6 anos, fomos ao princípio da tarde à capela de S.ta Margarida participar num ritual religioso – Beijar o Menino Jesus.
Acabou a devoção e lá viemos ladeira abaixo a caminho de casa. Morávamos na casa da empresa, em frente ao açude. Quando atravessou a ponte sobre a ribeira, o rancho Teixeira parou em frente à casa dos primos Tomaz e à casa da tia Florência que tinha uma filha jovem mas um pouco oprimida pela família.
Essa prima estava à janela e deu-nos conhecimento que havia ajuntamento no Grémio. Ora as minhas irmãs, calculando que os namorados deviam lá estar, não resistiram e levam com elas as irmãs mais novas.
A minha mãe, a “Anita do Lagar”, tinha relógio em casa, era tarde de Inverno, entendeu que já era tempo de as filhas chegarem a casa. Nem pensou nos prós nem nos contras. Vem estrada fora. A primeira pessoa que encontrou foi a tal menina que estava à janela. Logo pediu informações:
- Viste as minhas filhas?
- Oh prima, as suas filhas foram todas para o Grémio! – respondeu maldosa.
Aí vai a prima Anita do Lagar de vara na mão. Entra a porta da sala do Grémio precisamente quando a música da grafonola começa a tocar e os pares de namorados davam os primeiros passos de dança.
Por motivos de força maior parou a música, parou o baile e lá vêm escada abaixo (1.º andar bem alto) as cinco Teixeiras à frente da mãe. Parece-me que a vara não funcionou mas a façanha nunca foi esquecida.
O meu pai é que não gostou nada da ação da sua esposa.
A minha mãe tinha pavor a bailaricos e namorados das filhas à porta. Todos os que por lá passaram ficaram com poucas recordações agradáveis. Esta estória do baile passou-se já lá vão 75 anos.(Dulcinda Mota Teixeira)**

* Expressão utilizada por Dulcinda Teixeira num texto que havemos de ler um dia destes.
** D.M.T escreve de acordo com  o novo AO (de facto não há bela sem senão).

20 de agosto de 2013

E no entanto ela vive!




Pois parece que afinal PL ainda não deu o último suspiro! Fico feliz, penso que ficamos todos! Sub-repticiamente, direi mesmo que subterraneamente, apercebemo-nos que o silêncio da rua bordejada pelos habituais automóveis estacionados (ainda um dia averiguarei a razão de tanto carro numa terra sem gente), as fachadas arruinadas e as janelas cerradas, ocultam frustradas tentativas progressistas e guerras intestinas que, não sendo embora sintomas risonhos mostram que o doente respira, deprimido mas respira.

Fotografia retirada da net
Descobri aqui  o motivo. Acho que percebi bem do que li: um grupo de pessoas, sócias e amigas da Associação (?), segundo dizem, querem revitalizar a dita que, também segundo dizem, está fechada há ano e meio (o período de tempo não sei precisar, mas sou testemunha do desarrumo que impera desde a última iniciativa ao ar livre que me obrigou a ter que dar um jeito no caos fim-de-festa que ninguém limpou, se quis  ter acesso a uma propriedade minha) não tendo tido, da parte de quem tem a chave, receptividade para lhes passar o testemunho, isto é, a dita chave. Acha o grupo que, uma vez que quem a tem (a chave) mantém as instalações fechadas e não promove iniciativas, então que a passe a quem lhe dê uso.

Confesso que não deixa de me parecer bizarra esta dança das chaves: trabalhas tens a chave, não trabalhas dá cá a chave. Será que foi sempre assim que funcionou a transferência de dirigentes  ao longo dos anos? Se foi, afigura-se que deixou de o ser pois os actuais detentores não querem dar a mão, perdão a chave, aos pretendentes.
Parece-me bem, eu cá também não dava.
Não me parece bem que se dê uma coisa que não é nossa.
Não me parece bem que, quando não  apetece fazer uma coisa, ou não se pode ou não se quer, não se deixe os outros fazerem, se quiserem, se lhes apetece e se têm uma vontade irreprimível. Sobretudo se essa  coisa é, em principio, para o bem público e decorre num local que não é   propriedade particular.
Finalmente, parecia bem a toda a gente sensata que se fizesse o que estipulam as regras, a instituição há-de ter estatutos ou,  não os tendo, a Lei geral determina procedimentos a adoptar nestas circunstâncias.
A resolução será facílima comparada  com o ridículo e a aparente mesquinhez da situação. Promover uma  assembleia geral de sócios honra a história da colectividade, agrega pessoas,  contribuí para manter a terra viva.
O provável sucessor não é do agrado de quem sai? Temos pena! Como dizia o outro, ainda não se arranjou nada melhor que a democracia!
Declaração de interesses (eu andava doida para usar esta expressão que está agora muito na moda): não sei quem são as pessoas que constituem os órgãos que “têm a chave” assim como não conheço  “aqueles que a pretendem”, mas quero muito que Porto da Lage tenha presente.(MFM)

14 de julho de 2013

No ciclo eterno das mudáveis coisas




No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me fiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.


 Ricardo Reis


12 de julho de 2013

Jornal Longe







Jornal Longe


Que faremos destes jornais, com telegramas, notícias,
anúncios, fotografias, opiniões...?

Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
e o sol empalidece suas letras infinitas.

Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.

De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
“Os jornais servem para fazer embrulhos.”

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.
 

Cecília Meireles (1901, 1964) Em Mar Absoluto e outros poemas.              

10 de julho de 2013

Quanto da terra se pode ver do Universo...




Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

8 de julho de 2013

Sol Nulo dos Dias Vãos





Sol nulo dos dias vãos
Cheios de lida e de calma
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém

Fernando Pessoa






3 de julho de 2013

As Freguesias de Beselga e Madalena I


 Amorim Rosa descreve da seguinte forma os limites da  Freguesia de S. Miguel de Porrais (Carregueiros) no seu  livro História de Tomar, vol I,  pag.143, aquando da reforma de que já  falámos anteriormente:

«- Freguesia de S. Miguel de Porrais (Carregueiros):
Em 1570 abarcava as actuais Freguesias de S. Silvestre da Beselga e Pedreira com os seguintes limites:
Começa na foz da Ribeira da Arrascada onde entra no Rio desta Vila de Tomar e vai dai pelo Rio acima ate a Cabeça do Carqueijal. que é acima do Porto dos Cavaleiros, e dai volve contra o poente, ao Vale da Amarela, e dai pela Ladeira da Ferraria direito ao Vale de Mós e dai direita a paredinha que esta na estrada que vai para Ourem, alem dos sobreiros. onde esta uma Cruz. e dai vai pela dita estrada direito aos sobreiros da Cabeça Aguda. e dai vai as Barreiras Vermelhas, e dai ao Monte Ruivo. e dai ao Ribeiro que vem do Furadouro. e dai pelo regato que vem da Fonte do Azorrague. e torna dai por detrás da Cabeça de S. Pedro. ate que vem partindo do norte com a Freguesia de Santa Maria do Vale do Sancho (Sabacheira), e começa a partir com o termo da Vila de Ourem, e vai ao Algás das Cruzes, e dai ao Castelo Pequeno. partindo com o  termo de Torres Novas. e dai vai ter às Cruzes que estão no Castelo Grande, num penedo da banda do levante, e dai desce ao Porto da Ovelha que é na Ribeira de Fungalvaz e vai pela ribeira a fundo. partindo com o dito termo de Torres Nova e seguindo o dito termo desce a Fontainha de Fungalvaz que esta de alem da dita Ribeira assim como vai a demarcação entre os termos destas ditas Vil e sobe até à Sesmaria e dai a águas vertentes pelo Vale do Prior abaixo e vai ter ao caminho que vai desta Vila de Tomar para Alcobaça, as Pedras Antas e dai torna pelo dito caminho e estrada contra levante partindo do sul com a Freguesia da Madalena, pela dita estrada até a Ponte do Cerzedo, e dai vai pela mesma estrada ate à Cruz de S. Martinho onde se aparta o caminho que vai para o Sonegado; por este caminho vai ter a estrada de Ourem, e daqui vai pela dita estrada de Ourem ate ao cabo das oliveiras onde se aparta o caminho da Pedreira da dita estrada e dai vai ao valado da vinha que foi de Rodrigo Anes Gordino e dai direito ao forno de cal que foi de Lopo Fernandes Toscano e dai pelo Vale abaixo ate a Ribeira da Arrascada e dai pela Ribeira abaixo ate a Foz dela onde se mete no Rio onde começou.

A Igreja Paroquial é a actual e havia nela os seguintes templos em 1570:
S. Silvestre da Beselga e S. Lourenço.Mais tarde construiu-se o de Nossa Senhora das Neves, na Pedreira.
Em 1570 havia nesta Freguesia 20 lugares sendo o mais importante a aldeia de Arrife com 17 fogos (cerca de 70 habitantes); Carregueiros tinha apenas 13 fogos; S. Silvestre da Beselga. 4; e os Casais da Pedreira 5. O total da Freguesia era de 106 fogos, cerca de 430 habitantes.» 
 
 Posteriormente, não se sabe exactamente quando, a freguesia de S.Silvestre da Beselga autonomiza-se, sendo certo que já existia em 1712 como vimos no post anterior. 
As duas freguesias, Madalena e Beselga, mantêm-se com os limites territoriais conhecidos até aos dias de hoje,  nos três séculos seguintes não obstante as reformas administrativas de 1840, da Primeira República e do Estado Novo.
Como curiosidade apresentamos abaixo a evolução do número de fogos (ou vizinhos) nas duas freguesias nos séculos XVIII e XIX.
Segundo o censo de 2011 a Beselga tinha 751 habitantes enquanto na Madalena havia 3 239.
Para quem quiser fazer comparações entre a população de então com a de agora pouco posso ajudar. Sempre direi, no entanto,  de acordo com as "regras" demográficas que pude consultar (não garanto a fiabilidade absoluta das minhas fontes) que a cada vizinho correspondiam no sec.XVIII 3,3 almas, sendo que eram considerados "almas" os indivíduos, nalguns casos com idade superior a sete anos e noutros casos a onze anos.
                    

Data BeselgaMadalena


1732101313


1757110300


1856187288


1864*212
483

* data do 1.º censo realizado em Portugal

                         

2 de julho de 2013

Ao que chegámos

 

Isto é tão degradante  que nem consigo ser cínica.





  Deve chamar-se tristeza                                                         
  Isto que não sei que seja
  Que me inquieta sem surpresa
  Saudade que não deseja.
  Sim, tristeza - mas aquela
  Que nasce de conhecer
  Que ao longe está uma estrela
  E ao perto está não a Ter.

 Seja o que for, é o que tenho.
 Tudo mais é tudo só.
  E eu deixo ir o pó que apanho
  De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa

21 de junho de 2013

Juventude na Azenha


 Junto à mina da Azenha (sensivelmente em frente, do outro lado do estradão) existia (destruído nos anos sessenta) um " enorme tanque  rectangular para onde corria a água da nascente  [que] daí iria alimentar a azenha e ainda regar as terras de cultivo" ao lado do qual foi tirada esta fotografia com jovens portalegenses, em 1937. As duas crianças sentadas à frente, a contar da esquerda, são os nossos conhecidos e grandes amigos deste blog os irmãos Ilídio e Dulcinda Teixeira.


Fotografia cedida por DMT




20 de junho de 2013

Debaixo do Carvalho



















mina da Azenha (curioso que em Porto Mendo, por onde o acesso para lá chegar é mais fácil, lhe chamam  a-sse-nha, com a sílaba sse bem acentuada) onde nasce a água que foi canalizada  para Porto da Lage  em 1950.





19 de junho de 2013

Clero, Povo e Sobejos de Carne


Açougue do Clero

«Na Sessão de 28 de Março [de 1813], sendo presentes os Representantes e o Juiz do Povo desta Vila, mandados convocar pelo Acórdão último para responderem à Provisão Régia, ouviu-se a súplica que o Clero desta Vila dirigiu a Sua Alteza Real para poder vender ao público os sobejos da carne do Açougue que, por Privilégio, o mesmo Clero tem; foi pelos presentes unanimemente dito que tal concessão não convinha ao Bem Público não só por haver Açougue próprio dele e arrematado por esta Câmara, mas também porque os recorrentes pretendem que o Povo lhe gaste os Sobejos da carne que eles não puderem gastar e, por consequência, não pode por tal forma o Público ser deste modo bem servido, nem era decente o irem fazer aquelas compras, muito mais havendo Açougue Público, que supere muito bem todo o fornecimento preciso.
A Câmara acrescentou que isto iria defraudar a boa fé em que o marchante público se acha, pela arrematação que fez na Câmara...»*


*Sessão da CMT descrita nos Anais do Município de Tomar, 1801-1840, Amorim Rosa

7 de junho de 2013

"Boys" de Antanho em Caça aos Lobos


 


Sir Edwin Landseer (1802, 1873), Fox and Wolf Hunting
Na Sessão de 8 de Janeiro [1813] a Câmara satisfazendo ao Ofício do Monteíro-Mor do Reino, sobre um requerimento de Rodrigo Jácome Raimundo de Noronha a fim de o nomear Monteiro-Mor do Distrito, informou:
«....Que os requisitos recomendados no Ofício do Monteiro-Mor do Reino se encontravam realmente no mesmo requerente, por ser dotado da mais bela capacidade, duma gravidade e desembaraço que o fazem digno de qualquer emprego. Que a sua Nobreza é das mais antigas e qualificadas desta Vila. Que é sucessor duma grande casa. Que nesta Vila tem a sua residência, sem que haja presunção de que ainda de futuro largue o seu antigo Solário. Que a precisão de Monteiro-Mor nunca se fez sentir tão necessária; porque os lobos e bichos são tantos, e vagueiam tão atrevidamente que não só têm entrado em muitas aldeias e casais do Termo, aonde têm comido os mesmos cães de guarda desses casais, mas até têm chegado aos mais próximos arrabaldes desta Vila; asseverando muitas pessoas terem-nos visto dentro das suas ruas; sendo pelo menos certo que próximo a ela tem sido visto algumas pessoas atacadas e acometidas por eles, e por isso persuadem seria muito conveniente a promoção deste Ofício, que se acha vago por morte de Leonardo Camelo de Carvalho, declarando-se ultimamente que o recorrente nem é miliciano nem nos consta que para isso fosse chamado. E que em vista disto é de deferir o requerimento*




*Sessão da CMT, descrita nos Anais do Município de Tomar, 1801-1840, Amorim Rosa

6 de junho de 2013

Cartelização das Câmaras ou Jornaleiros Especuladores



J.F.Millet (1814, 1875) Angelus, Museu D'orsay


«...Mais se deliberou nesta Sessão [4 de Maio de 1814], que devendo esta Câmara promover, na conformidade da Ordenação, L.O I Título 66 § 32, sobre a taxa dos jornaleiros, receia justamente dar esta Providência de seu ofício, temendo qualquer alteração que traga nos preços correntes nestas Vilas Comarcãs, uma vez que não seja unanimemente e ao mesmo tempo feita por todas, possa privar aquela aonde somente se faça dos braços precisos para a agricultura, porquanto os jornaleiros procurarão os sítios onde os preços lhe sejam mais favoráveis, e fugirão daqueles em que lhe sejam menos, e seria neste caso a providência assim dada na sobredita luz nociva ao Público. Para evitar portanto este sério inconveniente, se determina que se oficie ao Intendente Geral da Polícia, relatando as circunstâncias políticas a este respeito, e implorando-lhe que por efeito da sua autoridade haja fazer com que as Câmaras desta Comarca de Ourém Santarém e Alenquer, como vizinhas, satisfaçam a sobredita Ordenação, dentro de certo prazo, a fim de haver igualdade em todas as partes nos preços dos jornaleiros, regulada segundo as circunstâncias particulares das terras e dos preços dos géneros comestíveis, cujo módico preço é desvantajoso aos lavradores relativamente à carestia nunca vista, do preço dos jornaleiros.»


Sessão da CMT, descrita nos Anais do Município de Tomar, 1801-1840, Amorim Rosa

31 de maio de 2013

Apuramentos e multas de há cem anos


O cidadão portalegense João Pereira da Mota é apurado definitivamente para infantaria para servir a Pátria em 1912 (por motivos desconhecidos não vai à guerra) mas fica obrigado a reinspecção a que comparece em 1916, 1917, 1919 e 1920. Em 1918 só o trabalho (ou o desconhecimento) o poderá ter impedido de se deslocar a Tomar para aquele efeito, pelo que foi obrigado a pagar um escudo e vinte e um centavos de multa pela falta!
Se os benefícios da ausência não foram superiores ao custo da multa, imagino quanta penitência não se seguiu até redimir o saldo negativo!(MFM)






28 de maio de 2013

27 de maio de 2013

O Açude

As quedas de água na Ribeira da Beselga em Porto da Lage, nos anos cinquenta e em 1985 (última fotografia). Notam-se as diferenças.




 


Fotografias de Dulcinda Mota Teixeira. 

24 de maio de 2013

Os Pregões da Paciência nas Badaladas da Velhinha Santa Margarida


Este pequeno texto é dedicado aos Portalegenses de gema no qual tento recriar episódios que, embora banais, ajudam a dar um retrato do que era Porto da Lage nos anos 30.

Tremo….oooooooooooooços!!!..




Marco da Paciência

 Apregoava uma pobre mulher, aos Domingos em períodos estivais, tremoços adoçados nas águas da ribeira, dentro dum pequeno alguidar de barro que colocara em cima do marco de pedra, dito da paciência, que está junto das grades de ferro que ladeiam o largo da estação.

A dose, uma pequena medida de madeira com um fundo muito grosso e embutido, custava 20 centavos, 2 tostões como então a moeda era conhecida. Era uma fortuna para mim. Entregava-se a moeda ou moedas, podiam ser duas de 10 centavos ou de tostão, aparavam-se as mãos em formato de concha ou o bolso das calças e estava-se atendido. Depois é só dar-lhe uma dentadinha, premi-lo com o dedo polegar e o indicador e logo estava pronto para ser mastigado.

As medidas que doseavam na venda ambulante de tremoços e amendoins tinham uma característica muito curiosa: aparentavam grande capacidade por fora mas eram bem mais pequenas por dentro. Era a velha arte de lograr o consumidor.



O velho marco da paciência que hoje está torto mas bem direito quando a humilde senhora lhe pousava o alguidar com tremoços, deve ter servido para outros serviços mais nobilitantes noutros lugares mais distantes. Alguma informação terá para nos dizer. Não se destrua como também não se devia ter destruído a mais que velhinha capelinha de Stª Margarida, no cume do monte a que deu o próprio nome. Seria talvez a orada mais antiga da freguesia. A que a substituiu é uma simples construção com 4 paredes caiadas, sem qualquer valor histórico.



                       Juventude portalegense no monte de Santa Margarida em  1952 (fotografia cedida por DMT)


Da inesquecível velhinha, muito velhinha Santa Margarida, ainda soam no ar as vozinhas de algumas crianças que diziam em coro e voz alta as ladainhas incompreensíveis, para elas. Entre os mesmos sons também se ouve o badalar do pequeno sino que do cimo da frontaria voltada para Poente, anunciava algum triste acontecimento ou convidava alguns crentes para as orações no período da quaresma

A pobre Margarida, mártire do sec. III d.c., degolada em Antioquia por se afirmar cristã, não terá abençoado os “bota a baixo o que é velho e bota a cima mamarracho que é coisa nova, moderna”.(Ilídio Mota Teixeira)

23 de maio de 2013

A Diáspora Portalegense

 " um palmo de terra para nascer, um mundo inteiro para morrer".
Padre António Vieira


Outro dia encontrei um DeSousarosa (assim mesmo) no facebook (para os detractores e desconfiados da coisa por a acharem invasora, sempre direi que o preconceito é muito mais, para além de nefasto não tem mais utilidade nenhuma). Pois perguntei ao tal DeSousarosa, que lá está inglesando pelas américas com barbecues, festas de graduação de filhos e mais tudo a que tem direito e a gente vê nos filmes, se tinha alguma relação com Porto da Lage, resposta (em português, que em português tinha sido a pergunta):
- sou Mota e  meu bisavô foi instrumental no estabelecimento de Porto da Lage.

Pelo que me enchi (mais) de razão. Não interessa a vestimenta cultural, as raízes transportam-se, preciso é conhecê-las.(MFM)













10 de maio de 2013

Histórias de Porto da Lage


O ACTOR CONVIDADO NÃO QUIS SUBIR AS ESCADAS


Esta história que vos vou contar, ouvi-a há muitos anos a uma pessoa que participou nela. Tem um cunho anedótico mas não deixa de ser interessante para quem gosta de ler e saber o que aconteceu em certa época em Porto da Lage.

Tinha decorrido ou estava a correr uma revista num dos teatros de Lisboa, com o nome de cartaz “Arre Burro”. Entre os vários números do programa, havia um em que a Beatriz Costa, artista de teatro de revista e cinema muito badalada na época, entrava em cena a tocar um burro, de carne e osso, dirigindo-lhe uns piropos em versos musicados, trajando à moda das saloias de Caneças de outros tempos e com uma pronúncia da região muito acentuada. Alguns versos eram estes:



Em cena com Beatriz Costa no Teatro Variedades
em 1936.

“É um burro com chalaça
O estafermo do animal!
É sabido que por onde ele passa                        
Deixa sempre algum sinal

....“Vem cá, mê estapor
Tu tens má valor
Que munto senhor casmurro!
Ê digo-te aqui
Q`há homes pr'aí  más bestas  qua'ti
mê burro!”                                                 
 


Os encenadores de Porto da Lage acharam que o modelo da revista tinha a medida que se ajustava ao gosto do público local e arredores. Intérpretes não faltavam. Porém, havia uma dúvida: estará o actor convidado disposto a colaborar? Para se saber há que consultá-lo.

A um Domingo – nos outros dias da semana havia afazeres obrigatórios – levaram-no para conhecer a sala de espectáculos onde iria actuar. Chegado ao local, depara-se-lhe uma íngreme escada com uns vinte ou trinta degraus de pedra. Com solicitude disfarçada, foi convidado a subir. Perante a negativa, recorre-se a meios extremos: empurra de lado, puxa da frente, empurra detrás até que venceu dois ou três degraus. Puxa mais, empurra mais, até que o convidado a actor, mais do que aborrecido, dita a decisão final: um par de coices!

Perante esta atitude do actor convidado, os encenadores portalagences derivaram para outro modelo de revista com encenação menos espectacular. (Ilídio Mota Teixeira)

Afinal Havia Outra (Corrida de Burros Marralhões em Porto da Lage)


A propósito do comentário de  Luís Mota, H.C.M  mostra-nos  a reportagem fotográfica do grande acontecimento


Naquele tempo usávamos uma palavra cujo conceito surrealista nos escapava, marralhões (marralhão adj. s. m.) 1. [Popular] Indolente; bonacheirão. 2. [Portugal: Beira] Aquele que regateia.) significando depois do  último. Aqui vão imagens da Corrida de burros marralhões em Porto da Lage. O Luís CM a correr para a meta num jerico emprestado e anónimo; como se vê, só a sombra deles os ultrapassa. (H.C.M)